domingo, 1 de julho de 2012

O gato

- Mataram o Chico.
Tirei os olhos do copo de café pelando na minha frente, olhei o rosto marcado e abrupto da minha mãe, por entre a fumaça.

- O quê ? - eu perguntei, espantado.


Ela despejou o conteúdo negro e asqueroso do coador de café dentro da pia, abriu a torneira deixando escorrer a água e disse, de costas pra mim :

- O Chico. Mataram ele.

Jogou um resto de café envelhecido, enxaguou o bule de alumínio e colocou-o no aparador. Em seguida, secou as mãos no guardanapo, as mãos trêmulas, sem olhar para mim.

- Judiação - ela disse.

- Mas como ? - perguntei. E o cheiro de café aguado e de óleo de fritura que impregnam a cozinha daqui de casa desde sempre, mais o choque com a notícia da morte do Chico, me nausearam o estômago. Minha mãe parou diante da mesa, aparou meticulosamente os farelos de bolo espalhados sobre a toalha, jogou na pia. Mas o copo de leite sujo e a garrafa térmica. Ela retirou tudo, impaciente com a minha demora no café, abriu novamente a torneira.


- Onde que ele tá, o Chico ? -. E apenas nesse instante percebi que apertava o copo de requeijão cheio de café com força suficiente para quebrá-lo.

- Como eu não sei quem foi – respondeu a minha mãe. – Só sei que na hora que eu abri a porta da cozinha hoje de manhã, ele tava estirado perto das caixas de papelão que o seu tio trouxe, a boquinha toda roxa e o corpo torcido, duro que nem um pedaço de pau. Ele veio morrer aqui, o coitadinho. E nem barulho fez, morreu quieto. O veneno deve ter estourado ele todo por dentro.
Eu fiquei olhando para ela. Os cabelos pretos de tinta e desalinhados, entremeados por faixas de cabelo branco escasseando, o rosto de apenas 53 anos devastado, a boca amarga e sem lábio, mas o corpo ainda sólido. Ela repetiu :

- Judiação o que fizeram com o Chico. Mas quem fez essa ruindade, ainda paga. Que Deus é justo.

Eu fiquei em silêncio. Tomei um gole do café agora morno, mordi um pedaço do bolo de cenoura com aquela cobertura gordurosa de chocolate, tentando engolir a sensação de terror e perda, depois de ouvir aquilo. E mesmo essa necessidade da minha mãe tem de subir em cima das coisas e sentenciar em nome de Deus, me deixou um pouco irritado. Ela apanhou a vassoura, começou a raspar o chão com força, simulando empenho, entregue à possibilidade de que eu falasse mais alguma coisa, de que eu perguntasse mais. Tomei o último gole de café sentindo o arrepio do nojo. Levantei da cadeira, enxaguei o copo, ela veio para perto de mim sempre varrendo, disputando o espaço, pulei o amontoado de ciscos no meio da cozinha.

- Onde que ele tá, o gato ? – perguntei.

- Tá ali, perto do tanquinho. Eu trouxe ele – ela respondeu.

Abri a porta dos fundos. O Chico estava lá, esticado, deitado em cima de um pedaço de saco de estopa. Não fosse a maneira que ele tinha de dormir enrolado, parecia que estava só dormindo. Agachei perto e fiquei olhando ele. Senti um medo tão grande, um desamparo, uma sensação tão terrível, que nem dá para explicar. Os olhos do Chico estavam abertos, esverdeados, apagados.

- Acho que você vai ter que pegar a bicicleta e sair pra jogar ele em algum terreno por aí – minha mãe disse, atrás de mim. Eu fingi não ter ouvido. Eu sentia ela ainda parada na porta da cozinha, me olhando olhar o gato, mas não falei nada. Depois ela se afastou, varrendo ainda.


O Chico era um gato que morava com a gente há mais de 10 anos. Tinha sido eu quem tinha achado ele, miando sozinho num terreno baldio perto de casa, voltando do serviço. Eu enrolei ele na camisa e trouxe. Era um gatinho pequeno e espoleta, todo cinza rajado, os olhinhos atentos e muito verdes. Eu tinha 28 anos quando encontrei ele, agora tenho 38. E durante todo esse tempo, o Chico morou com a gente. Quando eu peguei ele, ainda não tinha desmamado, então a minha mãe enchia uma seringa de leite e dava na boquinha dele. Ele fazia um barulhinho engraçado quando mamava, a linguinha colada na ponta da seringa, se alimentando. Meu pai, que ainda estava vivo na época, foi quem chiou. Ele não gostava nem de gatos, nem de bicho nenhum. Ficou dias emburrado comigo e com a mãe, por causa do gato. Vivia reclamando que ele ia trazer doença pra casa, ronqueira, que ia encher o sofá de pelos. Eu e a mãe, a gente precisou bater o pé para que o gato ficasse. No começo, eu colocava ele pra dormir numa caixa de papelão, comigo, no meu quarto, para que, caso miasse à noite, não incomodasse o meu pai. Mas ele não miava, ficava quietinho, todo enrolado em si mesmo. A não ser quando a minha mãe aparecia com a seringa de leite. Ele aprontava um berreiro, ficava uma miação. Minha mãe dava muita risada, cuidava do gato como à um filho. Foi num desses momentos em que ela decidiu batizá-lo de Chico. E foi a partir daí que o gato se tornou parte da família, o quarto integrante. Exatamente um ano depois, meu pai morreu. O gatinho galgou uma posição.


Com o tempo, fui percebendo que as relações com a minha mãe, nosso convívio diário, sempre distanciado, agora se davam através do Chico. A gente se aproximou um do outro, com certa cautela, com medo de exagerar importâncias. Às vezes, o Chico deitava no sofá, e eu ia lá e ficava passando a mão nele, até ele começar a roncar. Ele mordia de levinho a minha mão, depois lambia. Minha mãe vinha e sentava no outro sofá e ficava olhando. Outras vezes, era ela que brincava com ele, eu aproveitava e sentava no outro sofá. Principalmente na hora da novela, o Chico reinava entre nós dois. A gente começou a comentar as coisas do gato :

- Hoje ele comeu pouca ração – ela costumava dizer.
- Vamos trocar de ração – eu respondia, meio feliz.

Outras vezes, minha mãe reclamava da quantidade de pelos que ele soltava. Mas eu sabia que ela falava apenas por falar. Eu rapidamente respondia :

- Eu vi na televisão uma vez que a gente tem que escovar o pelo dele, até pra ele mesmo não ter que fazer isso. Que gato quando engole pelo, fica doente.
Dia seguinte, ela escovando o gato com uma escova de cabelos velha.
O Chico servia até como desculpa para que assuntos adormecidos aparecessem entre eu e a minha mãe. Um dia, diante da televisão, enquanto o Chico ronronava interesseiro esfregando o corpo nas minhas pernas, eu comentei :

- A senhora lembra como o pai não gostava de gato ?
O Chico se aproximando e acariciando as pernas cheias de varizes dela foi a deixa para que ela confidenciasse, sem olhar pra mim, mas olhando para o gato :

- Eu lembro. O seu pai não era um homem ruim. O problema dele era a bebida, só isso.

Outra vez, ela usou o gato como pretexto, para perguntar sobre mim :
- E aquele seu amigo, que vinha sempre aqui em casa ?

Fazia tempo que eu tinha terminado aquele relacionamento. Ela sabia, que mãe sempre sabe. Respondi, fingindo um bocejo :

- Ele se mudou. Não mora mais aqui.
A gente se olhou por um momento. Desviamos os olhos, assuntos intocados constrangendo aparências.


E agora, o gato estava morto. Nessa manhã mesmo, minha mãe encontrou um saco, botei o Chico dentro e apanhei a bicicleta. Eu não ia simplesmente jogar ele em qualquer terreno. Abri um buraco e enterrei ele, com saco e tudo. Quando voltei, percebi o nariz vermelho da minha mãe, mas não falei nada. Nem sabia dizer se ela precisava de consolo. As tentativas de consolar ela, no enterro do meu pai saíram desastradas, forçadas, falsificadas. Fui para o meu quarto, espiei o sábado definhando amarelado através da vidraça.


Nessa noite, a casa ficou em pleno silêncio. Minha mãe não ligou a televisão para ver a novela, ficou sentada na sala, as luzes apagadas. Fui jantar. Fiquei olhando o caldo escurecido do feijão no prato, o arroz. Com o Chico ainda vivo, ela viria se sentar na mesa, mastigaria a comida com a calma sôfrega da idade, e seríamos o esboço de alguma coisa. Como se eu sentisse a necessidade de me agarrar ao pouco que o gato tinha levado de nós dois, o último vestígio de um sentimento que quase nunca existiu, parei diante da porta da sala às escuras :

- Mãe, a senhora não vai vir jantar ?

- Já to indo, filho – ela respondeu.


Jantamos então. Mergulhados num silêncio que eu pensava que tivesse acabado.

Um comentário:

  1. Claudimar, muito bom! só achei que faltou "lapidar" um pouco. beijos

    ResponderExcluir