domingo, 25 de agosto de 2013

Cubo Mágico



É de manhã. Tem uma cadeira estrategicamente posta ao lado da janela. Não me lembro mais quem foi que a colocou ali. Se foi eu, se foi ele. Sei que fui eu e o outro, eu e ele, unidos por essa tarefa diária. Estou sentado. Não na cadeira, que vejo de uma distância de quatro ou cinco passos, madeira prensada esfarelando, uma lasca. Na beirada da cama, eu. De banho tomado e chinelos, os cabelos muito penteados e limpos. Como um menino de onze anos. Nesse quartinho de pensão, tudo é muito composto, asseado, apesar de simples. A simplicidade é o estofo da limpeza. O quarto dissimula o próprio quarto.

Então, eu entrei de repente dentro do então. Escuto o som que faz com que o outro espere todo dia, em frente à vidraça. Ele ouviu também, ele ouviu primeiro do que eu. É um barulho agudo, um risco vermelho na manhã assexuada, chegando aos nossos ouvidos abafados por outros sons, dos carros, das pessoas, dos passos, dos pensamentos borbulhando em calçadas sujas. É um som que não surpreende, nem a ele e nem a mim, esse giz de cera em paredes. Um som que evolui num crescendo, atinge a base alta, e em seguida definha, como se nunca tivesse começado. Como se tudo dentro desse quarto e dentro de nós dois se organizasse por alguns segundos para ouvir esse som, esse sinal, sem que a gente enlouqueça, sem que a gente aperte os dentes com força, com ânsia. Retirando cuidadosamente as cascas endurecidas de um cancro antigo que ainda não cicatrizou. Então, ouvimos o som. Fiquei ainda alguns segundos na cama, o corpo trêmulo, suando as mãos. Desci os olhos, vi o meu próprio pé magro e descalço, sobre o tapetinho áspero. Quando ergui os olhos, o outro já tinha se levantado e sentado na cadeira ao lado da janela.

A vidraça não é encardida. Ao contrário, ela é intimamente reveladora.

A silhueta magra recortada de encontro ao vidro, interrompendo quietamente a impressão que surge, olhando por dentro desse quarto, de que a manhã não rodopia como deveria, de que não obedece ao seu próprio mecanismo neutro. Ele está sentado na cadeira, diante da janela, olhando a rua. Com as mãos ossudas e um pouco tortas pousadas sobre o joelho. Aperta os olhos com os dedos, por um instante, como se não tivesse dormido direito. Como se não suportasse. Levanta os olhos, e fita o por detrás da transparência opaca.

Ele olha o outro lado da rua. Pessoas passam, numa mistura neutra de indiferenças. Mas o que mais o interessa coagulou-se na calçada oposta, como o amontoado de nata gordurosa e amarelecida que escapa da colher que colhe, e se reúne em um canto do vasilhame, acovardada e asquerosa. São um punhado de pontos escuros, dezenas deles, tão juntos e condensados que formam uma massa compacta de ausência de luz, apesar do começo da manhã. Como um jato de sementes negras. Eles brotam de uma espécie de bojo informe e desfocado, porejam como gotas, na superfície desatenta do dia. Primeiramente alguns, vacilantes e desajeitados, em seguida eles se movimentam e se atropelam, juntam-se em formas e retas amparadas por uma inocência cínica. Ele coça o pescoço, sente o próprio olhar estatelado diante dessa falta de entendimento. Permanece imóvel na cadeira, eu desvio os olhos para o par de sapatos marrons encolhidos num canto do quarto. Os sapatos oferecem uma oportunidade de organização diária, de um estar dentro da vida que, apenas em si mesmo, tem a capacidade de esconder o que ele realmente é. Todos os dias, ele calça o sapato com lentidão desnecessária, mergulhando o corpo no líquido cotidiano do gesto, e saindo limpo, incólume. Mas está descalço, agora. Com os pés nus, no assoalho morno de madeira. Eu estou sentado na cama. A colcha com flores avermelhadas e de uma intensidade punitiva e dolorida. Estico as costas, é de manhã.

Os pontos escuros perpetuam-se pelos dias em ruas, calçadas, casas, bairros, escolas, prédios. Ele um dia tentou fugir, esmigalhado pela composição invisível de uma Lei. Não funcionou. Agora, descalço, destacado contra a vidraça, ele observa. Já começou a manipular o próprio pênis sobre a calça do pijama.

Ele não quer olhar. Ele não quer olhar, porque ele sabe que eles não querem que ele olhe. Eles não querem que ele olhe porque eles sabem que ele quer olhar. E então, ele olha. Ele olha, com os olhos deles em cima dele.

Liberta o pênis da calça do pijama, aproxima um pouco a cortina a fim de esconder melhor o rosto, e inicia o movimento que a Lei não permite, mas que não pode evitar. Os pontos escuros ainda reúnem-se em torno de uma estrutura invisível, colônia de fungos, mas, no entanto, começam a se dispersar. Ele precisa agir rápido. O pênis rosado e escuro, cheirando a sabonete, é apertado pela mão direita, em um movimento sucessivo que, na realidade, não parece movimento, é como se a mão tivesse se detido sobre a glande pequena e estacionado, trêmula e segura. Ele não sente vergonha de se masturbar, na minha presença. Eu sequer consigo tirar os olhos desse limiar, desse extremo embebido no prosaísmo. Minhas costas doem, há quanto tempo estou sentado ? Levanto os olhos, a movimentação do pênis na mão dele tornou-se mais frenética. A dispersão completa dos pontos escuros começou, e ele precisa justificá-la, de alguma forma. De repente, ouço o estertor de todos os dias, vejo o esperma parco e grosso brotar do movimento, o corpo dele em arco ridículo sobre a cadeira, o rosto voltado para a vidraça. Em seguida, o suspiro profundo, cansado, impregnado da transgressão da Lei. Minhas costas doem, é de manhã, estou cansado. Inclino o corpo sobre a cama, sinto o alívio da coluna vertebral, e de alguma coisa, que não consigo nomear. O teto de tabuinhas velhas. Há um rombo escuro, no canto.

É de manhã, a conclusão morna do tempo.


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