segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Prisma

           " Dieu est le grand solitaire qui ne parle qu' aux solitaires et qui ne fait participer à sa puissance, á sa sagesse, à sa felicité que ceux qui participent, en quelque maniére, á son éternelle solitude."

Leon Bloy




            A solidão é a geometria do sentido.


   Marcel olhou. Ficou segundos assim, na posição de apenas olhar. Na posição de, mesmo olhando, as coisas estarem acontecendo, encaminhadas. O homem olhou o sol, pestanejou na manhã ensolarada. Escolhera lavar o carro como superfície. Estancou o filete de água que escapava por um rachado na mangueira de jardim, depois direcionou o jato sem desfalque sobre o capô do Uno escuro que nem sujo estava, redundava limpeza na manhã limpa.
   Era um domingo muito bonito.
   Mas havia o silêncio. Aquele silêncio que arreganhava os dentes e se imiscuía nas ruas e casas, de onde as pessoas emergiam respingando sono, as crianças sonolentas já no computador, compras para o almoço, o olhar fixo no ponto cego do dia. Um domingo que acabaria passando tão rápido que poucas pessoas pessoas prestariam atenção no silêncio, o silêncio com que o desespero é desenhado, a quietude plana das manhãs de domingo.
    Ele inclinou-se, desligando a torneira no canto do quintal. Prestou atenção.
    O silêncio fechou a boca, de repente. O barulho de uma moto recrudesceu em alguma parte, era o entregador de jornais fazendo a vizinhança.As coisas ainda aconteciam.
    O ruído dos corpos nus, os corpos nus na manhã solta.
 

   Marcel escutou. Ficou segundos assim, na posição de apenas escutar.Na posição de, mesmo escutando, as coisas estarem acontecendo, quase prontas. Umedeceu a esponja ensaboada na água do balde, depois deslizou pela sobre a superfície do carro em pequenos movimentos circulares,fitou o rosto barbado e belo no retrovisor. Respingos de espuma ricocheteavam, molhando o camisão do homem. Tão masculino, ele pensou, um homem lavando o carro. Qual é a espessura da minha vida? qual o nível dos outros, e o espanto dos que dissimulam? Uma coisa escura escorrendo do espanto.
  
   Afastou-se alguns passos, todo o carro ensaboado.

   Você é desnecessário.
   A borda da mancha se internaliza e corrompe o medo, discos do Frank Zappa.

   Marcel enxaguou o Uno, depois secou minuciosamente. Apanhou um trapo de flanela na garagem, abriu a latinha de cera, salivando com aquele cheiro. O engano primário de tudo aquilo era deixar.Triste ter que deixar.O carro- o carro estava limpo, agora.Apenas agora.
   Manobrou de volta á garagem. Cerrou o portão, o barulho da folha de metal enchendo o domingo com a estopa cotidiana. Eram quase dez horas. Antes da incapacidade, havia isso, então. Entrou na casa, passou os quartos numa lembrança. Trancou a porta da cozinha, por fora. A chave, a chave ele jogou dentro de um xaxim seco. A borda da mancha é essa.
  

   Marcel sentiu. Ficou segundos assim, na posição de apenas sentir. Na posição de, mesmo sentindo, as coisas estarem acabando. Entrou novamente na garagem, desceu a porta.

   Tinha um daqueles espelhos antigos de moldura de madeira, pegado na parede.


   Mesmo na penumbra, sacou o revólver e apontou na direção do espelho. A expressão de terror do barulho, que é o contrário do silêncio . 

Um comentário:

  1. "O silêncio fechou a boca". Primoroso isso!Gostei da construção que vc faz do silêncio ao seu contrário, que ele buscava.

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