Meu amigo Paulo Sbragi ,que é roteirista e quadrinista de talento ainda não descoberto, tem uma teoria interessante sobre gostos pessoais no que tange a cultura e como desenvolvemos essas preferências durante a vida. Segundo ele, basta apenas um puxão no alinhavado.Isso mesmo. Como quando você percebe um fio solto na meia e puxa, arrebentando ou não (e se não arrebenta ,ficamos bastante irritados).Para o Paulo, basta a descoberta de um autor, uma banda, um filme, uma HQ ou um cineasta que te cause febre, pra que se possa descobrir o item anterior e o posterior. Assim, quem começou a ouvir Los Hemanos em breve descobrirá Weezer, e em seguida Radiohead, Chico Buarque, e o caralho a quatro.Isso ,é claro, vai depender do quão aberto é o indivíduo a conhecer coisas novas.Mas, no limite,todas as manifestações culturais estão intrínsecamente ligadas.
Comigo aconteceu a mesma coisa, no plano da literatura.Uma vez, uma professora me perguntou de onde saiu meu gosto pela leitura e, na época, eu não soube responder. A gente vê escritores de renome contando sobre o papel decisivo que seus pais tiveram na sua formação como leitores, em como a biblioteca da casa era bem fornida com os clássicos e tralalá. Mas eu fui criado em um ambiente em que a leitura, se não era desestimulada, tampouco era encorajada.Não que meus pais fossem ignorantes. Eles apenas estavam preocupados com interesses mais imediatos, como o sustento dos filhos. Hoje em dia, olhando em retrospecto, sei que a maior causa do meu apego aos livros foi a solidão própria da infância (acho que deveria tocar "Fake plastic trees" do Radiohead, agora,tadinho.) Uma criança que sempre se sentiu diferente,deslocado, distanciado. Da família, da escola, dos amigos, preso no próprio umbigo (que ainda não tinha pelos!). E então apareceram os livros, aqueles objetos cheirosos e má gicos, silenciosos, repletos de vida e surpresas. Eu parecia aquela personagem da Clarice Lispector, do conto "Felicidade clandestina", a menina apaixonada por livros...Minha avó paterna tinha uma enciclopédia de capa amarelo-ovo, que ela não deixava Cristo mexer. Quando meus irmãos mais velhos iam pra escola, eu ficava a manhã inteira fuçando nos livros didáticos...em êxtase puríssimo.
Gibis, primeiramente. Todos. Marvel, Mickey, Mônica...O primeiro livro que li inteiro na vida foi o clássico dos anos 80, "O Gênio do crime"...Antigamente, a editora Ática tinha uma coleção chamada "Vagalume'', livros infanto-juvenis deliciosos. Li quase todos( escondido no quintal da molecagem, sujo, os dedos lambuzados de chocolate (mas eu não era a menina suja do poema do Pessoa não, infeliznente)e ficava maravilhado com aquelas estórias. Com a adolescência, vieram os pelos, punhetas, prazeres, que se vertiam no gosto literário, literatura mais comercial,em que o sexo era o mote: Harold Robbins, Jacqueline Susan, Sidney Sheldon...não me dizem mais nada hoje, mas inesquecíveis, todos. Agatha Christie e Monteiro Lobato leio até hoje.
Foi aos 18 anos que tive contato com a obra de Clarice Lispector. Na realidade, tudo aquilo que é estranho, desconectado da realidade, me interessa sobremaneira. E aquela linguagem esquisita, hermética, de uma mulher de rosto aristocrático, com aqueles colares imensos e os cigarros, solitária, complexa, me deixou doente. Li tudo o que havia dela na biblioteca municipal. A obsessão continua, agora amadurecida e sem fetiche...Com "Perto do coração selvagem", eu disse adeus à minha infãncia.
E Clarice Lispector me levou a Virginia Woolf, que me levou a James Joyce, que me levou a Faulkner, que despertou meu interesse pela literatura americana e descobri Henry Miller, Truman Capote, Sylvia Plath, e assim vai...ad infinitum...
Eu queria que a realização de sonhos e os momentos de felicidade fossem assim. Bastasse um puxão.
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