Publicado em 1929, " O som e a fúria" é, sem dúvida, o livro definitivo de William Faulkner, e um dos romances mais importantes e influentes do século XX. O belíssimo título foi extraído de "Macbeth", do xará William Shakespeare, naquele trecho magnífico que diz: " A vida é uma história, contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada." Para o escritor sulista, esse trecho significava muito.
" O som e a fúria" narra a ruína financeira e moral dos Compson, uma família decadente e de passado escravocrata do sul dos Estados Unidos( região em que, aliás, Faulkner ambientou grande parte de suas narrativas, criando o mítico-im
áginario condado de Yoknapatawpha). O romance é constítuido por quatro partes, sedimentadas em dias distintos, mas intrínsecamente enredadas e complementares, formando um emaranhado temporal que exige uma boa dose de preparo do leitor. Os acontecimentos da história deixam-se ser entrevistos através das vozes dos filhos varões da família, mais a da criada negra na parte final, justamente o meandro mais compreensível do romance mas a que Faulkner, espertamente, não deu voz própria, sendo essa parte narrada em terceira pessoa. Talvez a grande personagem do romance seja Dilsey, no sentido de que ela organiza, através de sua voz manipulada( no bom sentido) por Faulkner, o todo hermético e obscuro do romance.
As vozes dos filhos homens são de difícil compreensão: Quentin, o filho cujos estudos em Harvard foram custeados pela venda de um dos pastos da família, um tipo solitário e perturbado, que nutre uma paixão doentia pela própria irmã Caddy; Jason, o filho ganancioso, temperamental, o qual Faulkner desproviu de moralidade e amoralidade mas que é, no entanto um moralista ao cultivar o ódio pela irmã e a sobrinha Quentin; e o mais marcante dos filhos, Benjamin, um deficiente mental aprisionado em uma teia de delírios e percepções enviesadas. Se os trechos mais belos do romance se estruturam na voz silenciosa e insana de Benjy, também os trechos mais herméticos e de difícil compreensão se encontram ali. A isso soma-se o constante xadrez dos tempos na narrativa faulkneriana, em que as camadas temporais são sobrepostas e se alternam a todo momento, tornando difícil e traumático um primeiro contato com a obra ( como foi o meu caso). Mas cada leitor é um leitor.
O grande mérito estilístico de " O som e a fúria", contrariando os contemporaneos James Joyce, Virginia Woolf e Marcel Proust, na minha opinião, foi o de não tornar a técnica do fluxo de consciencia uma invenção literária, ou melhor dizendo, domesticar essa técnica em proveito da compreensão necessária inerente a literatura. Virginia Woolf e Joyce " literarizaram" essa técnica, ao passo que Faulkner reproduz em " O som e a fúria" a reprodução mais fiel de uma mente desaguando seu fluxo: desconexo, perturbador, repleto de símbolos e cismas. Nesse aspecto, Faulkner foi superior James Joyce, mestre declarado.
" O som e a fúria " é um livro para ser lido inúmeras vezes, a fim de que os tectonismos do entendimento subam a superfície. No instante em que isso acontecer, haverá um abalo sísmico literário. Impossível é ficar indiferente a essa obra-prima.

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