domingo, 19 de fevereiro de 2012

Assalto

- Todo mundo parado! Isso é um assalto, porra!

O homem apontou a pistola automática na cara do operador do caixa, os clientes não obedeceram a ordem do assaltante e se jogaram no chão, em meio as estantes, apavoradas. Um cúmplice vigiava atento a entrada da livraria, e andava de um lado para o outro, roendo as unhas.

O operador do caixa, intelectual bem-pensante nas horas vagas, nietszcheano em tempo integral, largou rápido as obras completas de Lukács (explicadas, porque intelectualidade tem limite), as mãos tremendo, o coração disparado, branco como um lençol. Abriu a gaveta do caixa e retirou um punhado de notas amarfanhadas, moedas caindo, e esperou um momento, assustado. Teve até o atrevimento de deitar um olhar blasé e pós-estruturalista para o assaltante, que também esperava. Disse depois, a voz embargada:

- Só tenho isso.

- Não é disso que se trata, imbecil!- trovejou o assaltante.- Não se mexa!, gritou e, em seguida, deu a volta no balcão e agarrou o atendente pelo colarinho com força, trazendo- o para junto de si, a pistola apontada no umbigo do leitor de Borges( todos desse tipo cagam Borges). Andando de costas, com o intelectual como refém, gritou para o comparsa que vigiava a porta da livraria:

-A barra tá limpa, Diadorim?

O outro fez sinal para que o amigo andasse mais rápido:

-Tá limpa! Rápido, caralho!

Riobaldo deu um safanão no intelectual e o empurrou para o interior da livraria, pulando meia dúzia de pessoas estendidas no chão, as mãos escondendo a cabeça. Tirou uma sacola de lona de dentro da cueca, em seguida segurou o cangote do intelectual, conduzindo o rapaz diante das estantes e prateleiras, com o revólver sempre em riste.

- Proust, filho da puta ! - Proust ! Não me faz perder tempo, cacete!

O intelectual encontrou o primeiro volume de Proust e jogou dentro do saco, suando frio.
- Kafka! - berrou Riobaldo.

A situação era bastante kafkiana. O atendente-culto jogou um exemplar usado de "O processo" dentro do saco.

- Mishima ! Rápido, seu merdinha!

O intelectual-atendente-culto gaguejou:

- Esse... esse eu não tenho...

Riobaldo afastou uns dois passos e deu com a pistola na boca do estomago do intelectual. O rapaz pranchou para a frente, apoiado na estante, os óculos caíram. Num gesto surpreendente, quase gentil, meio Perry Smith, Riobaldo apanhou-os e entregou ao rapaz. (Capote teria se sentido orgulhoso).
- Sartre !


Mas o soco na barriga fez com que brotassem lágrimas dos olhos do intelectual. Largou Sartre dentro do saco.
Foi só quando o atendente deixou cair um catatau do Foucault no saco, que Riobaldo se lembrou das cameras de segurança. Ergueu os olhos, encontrou duas. Sem nem ao menos mirar, num gesto teatral e tarantinesco apontou a pistola e atirou. Houve gritos. Estilhaços e faíscas explodiram. O intelectual rezava, prometia a si mesmo que, se escapasse dessa, assistiria o BBB em todas as próximas edições. ( Na verdade, ele assistia o BBB escondido de si mesmo).

- Flaubert !
- Joyce !
- Machado!
- Dostoiévski !
- Faulkner !

Livros, livros e mais livros. A sacola começava a pesar.

- E aí, Diadorim ? A barra tá limpa ? - gritou Riobaldo.
- Limpíssima, velho!- respondeu o outro.

Poesia, agora. Percorreram as prateleiras, Riobaldo cantando nomes como num bingo literário:

- Drummond, rápido, caralho!
- T.S. Eliot, seu porra seca!
- Rimbaud, cuzão!
- Pessoa, seu viadinho!

Quanta poesia. O saco já pesava feito chumbo. Riobaldo empurrou o intelectual para o chão:

- Agora não se mexe, senão eu mando bala !
Diadorim veio correndo.

- Pegou tudo, Riobaldo?
- Sim, tudo.
- Franceses, ingleses, russos?
- Isso. Collette e Rosamund Pilcher pra patroa.
- Bernhardt pra mim?
- Claro!
- Genet para nos sentirmos apadrinhados?
- Lógico!
- Garcia Marquez pra gente limpar a bunda ?
- Isso !... e Henry Miller, pras punhetas existenciais do meu garoto. Mas agora vem cá.
Riobaldo puxou Diadorim para junto de si, olhou fundo naqueles olhos azuis e injetados de maconha, literatura e angústia, e em seguida os lábios se tocaram num beijo longo, terno, aquecido. Durou alguns segundos o beijo gay de Klimt. Riobaldo tomou medidas práticas:

- Melhor dar no pé, ou a gente se fode !

Riobaldo, mesmo carregando com dificuldade a sacola abarrotada de livros, ainda encontrou tempo para dar uma coronhada numa mulher estendida no chão, agarrada a um livro do Paulo Coelho:
- Toma vergonha, piranha !

A mulher soltou um gemido e desmaiou.

Saíram correndo, jogaram a sacola no banco de trás do Fusca amarelo, Diadorim no volante. Pisaram no acelerador.
Alguns quilômetros adiante, foram interceptados pela polícia.

Por velocidade perigosa.


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