Hoje o dia está encoberto. Dias nublados, chuvosos. Fechados, retangulares. Chuvosos ou não, eles me emocionam. Com aquele vento frio ou não, eles me impulsionam ao estado íntimo das pessoas e objetos. De mim. Dias escuros são propícios a reflexão, aos edredons, aos aconchegos no corpo do outro, aos " bons livro",as tigelas de pipoca, aos olhares que ultrapassam vidraças melancólicas onde a chuva escorre seus dedos frios, ao filme ruim da Sessão da Tarde, as sopas de legumes batidas no liquidificador, a pensar no resultado das atitudes amplas, certeiras e insanas que as vezes tomamos em dias ensolarados. Dias nublados foram criados especialmente para os tímidos, que por um instante sentem a engrenagem do mundo girando ao seu favor. Dias chuvosos, com seus guarda- chuvas abertos formando uma espécie de adorno para a tristeza, pontos escuros no prateado das avenidas, as pontas de metal quem sabe chocando - se umas nas outras em calçadas estreitas, interrompendo solidões. Dias escuros são especiais. Especiais, mas também perigosos. Porque sobra tempo. Sobra tempo para olharmos através de uma outra vidraça, menos aprazível do que observar Deus fazendo uma faxina na cidade, o Senhor usando galochas amarelas e brincando de guerrinha de esguicho com São Pedro. Sobra tempo para avaliarmos incongruencias. Paisagens de dentro, sempre tão mais nubladas.
Somos nós, de alguma forma. Perdidos, ensopados debaixo de uma garoa fria chamada vida. E que um dia, vai estancar.
Dias encobertos são aqueles em que esperamos que algo de mágico, inédito, salvador, transformador, aconteça. Qualquer coisa. O olhar do estranho na rua, o telefone espantado, a frase solta grifada no livro, o pensamento vagando pela imagem do outro, pelo afeto sentido pelo outro, pela traição do outro, pela dor do outro, pela solidão do outro, que também é a nossa. Pelos medos inconfessados, pelas fragilidades implícitas da manhã chuvosa. Dias quadrados, geométricos, exatos. E aquilo que de mágico e transformador esperamos poderá brotar dessa exatidão. Esperaremos sentados, talvez. Dias escuros servem para se descobrir que a felicidade não se estrutura sobre alguma coisa chegando, como costumamos pensar. Isso que chamamos de " ser feliz "pode se amparar em imobilidades. O que não se pode é perder o momento, seja movimento ou inércia.
Hora de olhar mais uma vez pela vidraça. Pessoas passam debaixo da minha janela com seus guarda - chuvas negros. Ouço daqui o raspar entre duas pontas de metal.
É alguma coisa nascendo dentro de nossa miséria humana.
Hora de comer pipoca e ver um filme. Para esquecer.

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