sábado, 23 de junho de 2012

Dois lados

I - Fluxo

O barulho da chuva era tão alto que não conseguíamos nos ouvir, desejos torrenciais, eu me lembro que você disse alguma coisa sobre a gente, sobre estar juntos, sobre
ser feliz, mas as gotas grossas e pesadas nos separavam como abismos, eu me lembro de ter perguntado bem alto O que foi que você disse enquanto passava a mão no rosto para represar aqueles aquedutos correndo, além do fluxo de expressões ansiosas que eu queria esconder de você, parados naquela avenida quase movimentada, os bares iluminados ainda abertos, eu me aproximei e toquei de leve o seu rosto pulando corajosamente gargantas e ravinas, éramos dois homens nos tocando naquele teatro de Noé, e não havia arca, e nunca haverá arca, não havia lugar onde pudéssemos nos abrigar daquele dilúvio, mas a pergunta era : queríamos isso realmente ? Talvez se a gente se escondesse daquele aguaceiro, talvez isso significasse a ruptura do momento, ou então passássemos a nos ouvir melhor e no nosso caso compreender era perigoso, você me perguntou se eu estava a fim de me render ao clichê e juntarmos as nossas bocas na chuva, beijo cinematográfico, hudsons e newmans. Eu disse que sim, que só faltava alguém com aquela plaquinha divertida de claquete para dizer Ação e então nos beijaríamos bem Hollywood debaixo da chuva, você me respondeu qualquer coisa como A chuva é a nossa diretora e eu disse A chuva é a incontinência urinária de Deus, e nós rimos muito, eu me aproximei de você, olhei no fundo da tua boca e beijei o cristalino dos teus olhos, esses olhos estranhos e belos, ficamos assim parados nesse teatrinho de representações, você estendeu a mão e tocou a minha barba, a partir disso mundos cederam em alguma parte,e por um momento eu pensei que sem fugir da chuva eu fugia da chuva, que estando com você eu fugia do chuvisqueiro permanente dentro de mim, você fugia da sua garoa interna, os carros passavam, a chuva continuava, as pessoas iam embora, deviam estranhar aqueles dois caras estatelados por atrações mútuas, os faróis iluminando esses dois perdidos na noite suja que se encontraram, mas faltava muito pouco, a minha boca já diante da sua, eu podia ver claramente a fenda entre seus dentes, o bafo de cerveja e halls se misturando, as bocas quase se encontrando, nós já tremíamos de frio, ambos ensopados, Amazonas e Orinoco, tua boca encostou na minha, minha boca encostou na tua, descarga elétrica no diapasão dos nossos corpos, nossas línguas se enroscaram num quente, redundante e triste beijo, um carro que passou nos iluminou como quando a luz recai sobre ao atores, música dos Smiths tocando alto and if you must go to work tomorrow, nossa línguas enroscadas naquele embate desmitificador de projeções, meu halls passou para a tua boca, eu me embebedei com o seu hálito, e nos olhamos, e ficamos parados na chuva abraçados e sim,apesar do medo, apesar das dores, apesar de tudo, éramos o melhor casal de nossa espécie.







II – Coágulo

Caminhando com as mãos no bolso, a roupa encharcada colada ao corpo, ele prestava atenção na sinfonia pós-chuva : a enxurrada correndo no meio-fio, as gotas frias pingando dos tetos e marquises, um ou outro trovão retardatário e indignado. Devia ser umas 6 horas da manhã de domingo, poucos carros passando como bêbados. Lembrou do beijo que trocara com ele, horas antes. Lembrar não significava que tivesse esquecido por um instante aquele instante, mas sim que a imagem e o gosto aparecia a cada momento maior e renovada e acrescida na sua cabeça. Sabia que alguma coisa mudaria a partir de agora. Que alguma coisa estava se aproximando da sua vida. Como não sabia nomear isso, chamava de felicidade. E saltava poças sem se preocupar com o tênis encharcado, olhava o céu que resmungava ainda com nuvens escuras ( provavelmente choveria o dia todo ), os prédios, as ruas, o lixo, a feiúra feita de cimentos e vidro. Uma alegria Gene Kelly. Agora iria para casa, dormiria até tarde, depois acordaria com o barulho do silêncio da casa, os pais vendo um filme na sala e o pensamento no beijo, o pensamento nele, no beijo debaixo da chuva. Alguma coisa havia mudado. Definitivamente.

E algo importante estava se aproximando da sua vida, ele repetiu a si mesmo, estremecendo no ar frio.

O som que prenunciou o pontapé nas costas foi o de passos rápidos atrás de si. Não teve tempo de virar-se, a dor lancinante, a falta de ar, tentou puxar o fôlego. Mas o primeiro soco emergiu com força de alguma parte, um soco no queixo, em seguida o murro violento nas narinas, potencializado por algo metálico e frio. O sangue esguichou, ele pousou a mão no nariz e não conseguia acreditar no que estava enxergando. Tentou instintivamente se defender, procurando perceber o que estava acontecendo. Conseguiu divisar quatro vultos ao seu redor, como se esperassem. O chão dançava à sua frente. Ele sabia que não poderia cair, que se caísse seria pior. Mas um outro pontapé, ainda mais violento que o primeiro, dessa vez na boca do estômago, fez com que ele se inclinasse em posição fetal, cuspindo. Não suportou o próprio peso, caiu. Começou a saraivada de chutes. Protegeu a cabeça com as mãos. Estou sendo espancado, ele pensou. Mas havia o beijo. O beijo de horas antes. Que não poderia mais viver da mesma forma, depois daquilo tudo. Que não poderia esconder mais nada, nem de si mesmo, nem dos pais, nem dos amigos, nem do espelho, nem da vida. Tomou um chute violento na boca, ouviu o som assustador dos dentes se esfacelando, o gosto acre de sangue, a língua enrolando-se, uma massa vermelha. Tentou sentar para cuspir os cacos de dentes, apoiou a mão no chão e fez o movimento, os homens riram, chutaram-lhe o braço. Ele caiu de novo. Mas havia o beijo ainda.

Eles chutavam o rapaz quase desacordado no chão. As vitrines das lojas ao redor acompanhavam a cena horrorizadas e sonolentas, como se estivessem em choque por aquilo tudo se refletir em suas superfícies limpas. Elas refletiam a cena. E sorriam, cínicas que eram. Porque existia um segredo em tudo aquilo, um bojo, um vernáculo. O grande mal do mundo é que há espelhos em toda parte. A gente se olha, e tenta não enxergar, ou enxerga o que quer, ou simplesmente não olha. Aqueles homens enxergavam o que queriam. Como se buscassem o fim de algo, um acordo entre cavalheiros dentro da vida. Mas as vidraças refletiam tudo, a gargalhada transparente.
No chão, ele sentiu que estava perdendo a consciência. Ouvia os xingamentos. Saliva e sangue escorriam da boca, enquanto ele sentia o cheiro ambíguo das ruas molhadas de chuva, poluição, merda de cachorro, infelicidades, neuroses, cigarros. Percebeu então uma movimentação estranha ao redor de si, os chutes interromperam-se bruscamente. Ouviu uma voz de homem gritando ao longe, numa censura apavorada. Os agressores correram. Ele desmaiou.

Que existe sempre alguma coisa se aproximando das nossas vidas.

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