sábado, 23 de junho de 2012

Poema ancestral

Caminho por uma praia abstrata,
frequêncial,
dodecafônica.


A ressaca das águas
Despeja plânctons e recalques
Nos meus pés nus.

O cheiro de ancestralidade
Diante do crepom abissal.
A maresia
Me derruba com a sua insolência.

As ondas lambendo o recorte da praia
Vão e voltam
Como subconsciências.
Ao longe,
Nas tortuosidades marítimas,
Vejo a figura dele,
Estendendo redes,
Apanhando paguros ao invés de peixes.
Somos assim,
Gostamos de apanhar inutilidades
Aparentes.

As rochas
Estão infestadas de cracas
Como pústulas.

Eu e ele,
pontilhados por ausências,
Misérias.

Ao longe
No líquido amniótico da noite,
O grande Farol entrega sua substância,
Barcos e píers bocejam de sono.

Ele pretende ser
O farol da minha vida.
Antes perder a mim,
Em profundidades escuras com peixes de outros planetas,
Do que ser
Desnudado
Por essa luz.

Somos duas placas tectônicas em choque.
Sismos, cismas.


Mastigar cavalos-marinhos.


Caminho por uma praia abstrata,
Copos sujos de sangria na areia,
Vestígios da mentira de ontem.
Mas as verdades,
As verdades machucam como águas-vivas
Flutuando em nossas superfícies.
Há o contorno cetáceo
Do que nunca existiu.
Mas desenhei litorais nem tão abstratos,
Onde caminharíamos,
Se não fossemos tão separados.
A Grande Barreira de Corais
Entre nossos corpos.

Gaivotas materializaram-se de cartões postais.
Elas reproduzem a moldura
Do vazio.
Anêmonas
Foram as flores doadas,
Numa recíproca verdadeira.

Agora resta apenas
A tentativa de cicatrização,
Através da violência do sal.

Mas nós dois
Temos tentáculos,
Como polvos assustadores.



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