Ela se debruçou sobre a folha em branco. Em branco não, que há linhas. Pautas. Os cabelos castanhos caindo sobre o papel, os dedos das unhas pintados com Toque Mágico, a mão esquerda segurando a caneta rosa com cheiro de framboesa, como uma criança. O cadarço do tênis desamarrado e sujo, de tanto pisar, as pernas levemente abertas, que esquecia de si mesma. Que havia linhas em si. A professora tinha pedido que eles escrevessem um texto para homenagear os pais. Os pais homens, a mulher esclareceu depois. E ela, que gostava tanto de ler e escrever, subitamente se encontrou muda, sem ter o que dizer. Pensou em criar um texto que fosse mais do que inventado, mas inevitavelmente cairia dessa forma dentro da própria vida, em que a violência do pai-homem contra ela, mas principalmente com a mãe, não era o tipo de situação a ser materializada em traços, carbonos, palavras. Deitar o peso das dores infantis em pautas. Tudo isso ela pensava, sem pensar propriamente. Ainda não tinha a capacidade de ir ao próprio encontro.
Escreveria o quê, então ? Pousou a caneta sobre a carteira, roeu as unhas amargas e brancas de corretivo. Em seguida inclinou-se, escreveu assim : “ Meu pai é um homem muito legal “. Sentiu vergonha, imaginando o que a mãe acharia se achasse esse texto no meio dos seus cadernos. Mas sobretudo sentiu medo de que ela mesma encontrasse o texto, tempos depois. Ponderou, sem perceber que ponderava, arrancou a folha de caderno num só movimento, o trrrrrrrrrr se perdendo em meio ao barulho das carteiras e cadeiras sendo arrastadas, as vozes das outras crianças mergulhadas numa atenção líquida e disforme. Escreveu outro cabeçário, mastigou a tampa da caneta.
Enquanto lutava consigo mesma para escrever o texto ( o pai debruçando-se na carteira e olhando-a com curiosidade, assoviando e chupando os dentes ), sentiu a repentina umidade entre as pernas. Assustou-se, levantou os olhos da folha, olhou para os lados. Como se a visão íntima do seu corpo fosse, na verdade, uma espécie de panorama compartilhado, todos olhando alguma coisa que nem ela mesma olhava. Que tinha medos. Que havia linhas e pautas a serem respeitadas. A maioria dos colegas compenetrados na criação de seus textos, as línguas apertadas contra céus de bocas. Baixou os olhos, sentindo aquela umidade quente na calcinha, incômoda, incoerente. Pensou que talvez tivesse urinado sem perceber. Precisava ir ao banheiro. Mas e se a urina já tivesse atravessado o jeans ? Caso se levantasse, todos veriam, ririam dela. Ela apertou a tampa da caneta entre os dentes com mais força, enroscou os pés nos pés da cadeira, fechou as pernas, mas esse movimento fez com que o fluxo aumentasse ainda mais. Quando percebeu, já estava pedindo em voz alta, tentando conter o pavor : - Dona Cláudia, posso ir ao banheiro ?
A mulher olhou-a por trás do cansaço, respondeu bocejando como um gato :
- Pode, Camila.
Entrou no banheiro, não se olhou no espelho, trancou-se no reservado. Desabotoou o jeans, abaixou a calcinha. O tecido manchado de sangue, de uma coloração alegre, mas discreta, como se dissesse : não quero te assustar. Porque será assim por diante agora. Ela ficou olhando a mancha, surpresa, tentando entender. Deslizou os dedos sobre a vagina, impressões digitais,guache vermelho vivo. A mãe já tinha falado naquilo, que era o que acontecia quando as meninas ficavam mocinhas. Tirou papel higiênico, limpou os dedos. Sentia como se alguma coisa mudasse de lugar dentro dela, as placas tectônicas da infância chocando-se com as placas do que estava por vir, criando uma cadeia de montanhas dentro dela, de onde poderia cair, se desse um passo em falso. Lembrou-se do pai. O texto. O murro na boca que a mãe levara daquele homem na noite anterior, ela enfiada debaixo do cobertor com os ouvidos tapados com força, mas escutando ao mesmo tempo, caso fosse preciso chamar algum vizinho. Desenrolou mais papel higiênico, dobrou-o e encaixou no fundo manchado da calcinha, inventando algo que , na realidade, já existia. Pediria para a professora para sair mais cedo, faria o texto como tarefa. Agora, chegaria em casa e entregaria sua primeira menstruação nas mãos da mãe, provavelmente encontraria a mulher ainda na cama, com os lábios inchados e os olhos vermelhos. Subiu o jeans, escondeu melhor o papel manchado no cesto de lixo.
Olhou-se no espelho. As linhas dos seus movimentos agora apareciam impregnados de uma situação nova repleta de significados. Os traços mais apurados, menos escuros, apesar da claridade paralítica das lâmpadas do banheiro. Como se estivesse perdida desde sempre. Percebeu de repente que agora seria fácil mentir sobre o pai, em seu texto. Que ela dera um passo no desconhecido. Na ancestral dor feminina. Abriu a torneira, deixou a água escorrer pelas mãos riscadas de caneta. As unhas pintadas com Toque Mágico pareceram-lhe nada mais do que menos. Limpou-as, usando sabonete. Hoje mesmo, compraria um esmalte carmim.
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