O grito é sempre mais alto no verão.
A alegria é sempre maior no verão.
O susto empalidece mais no verão.
A melancia é mais vermelha no verão.
Ficar com gripe é insuportável no verão.
As obviedades são mais óbvias no verão.
As mentiras são sempre menos nocivas no verão.
Picolés de tangerina ficam melhores no verão.
Gravatas borboletas não combinam com o verão.
Toda dor é sempre mais dolorida no verão.
Ir ao banco debaixo do sol quente é terrível no verão.
A constelação de Capricórnio brilha muito mais no verão.
Os clichês são sempre mais significativos no verão.
As bolas coloridas de praia são mais coloridas no verão.
O desespero é mais sumarento no verão.
Roupas brancas secam mais rápido no varal
quando é verão.
Olhar o fundo dos teus olhos é a essência do verão.
Deslizar os dedos por teu corpo é como aprender braile no verão.
O lóbulo da tua orelha é mais salgado no verão.
Beijar teus lábios com sabor de Trident é o ápice do verão.
Amar teu corpo é como escrever um poema sobre o verão.
As metáforas são mais herméticas no verão.
As crianças são mais felizes quando chega o verão.
As sombras se arrastam pelos campos no verão.
Os dentes-de-leão atravessam o ar da manhã de verão.
Olhar para dentro de porões é mais difícil no verão.
O céu traz sempre mais pipas no verão.
Mangueiras de jardim são indispensáveis no verão.
A claridade é mais perigosa no verão.
Trabalhar é horrível no verão.
Uma andorinha só não faz verão.
Óculos escuros
Chinelos
e os poemas de Dylan Thomas
são como molduras
para o verão.
O ventilador e o sorvete
O filme noir na madrugada
são outra coisa
quando é simplesmente verão.
A noite quente
Os carros, as luzes,
a sensação de possibilidades,
Se não fosse verão
seriam apenas carros, luzes
e possibilidades.
Deus
usando chinelos, camisa havaiana
e óculos escuros do tipo gatinho
tomou uma limonada
e desenhou uma natureza-viva.
O verão, pausa clara e transparente.
Prosa Líquida
Exercícios para Auto-Claridade
sábado, 4 de janeiro de 2014
domingo, 25 de agosto de 2013
Cubo Mágico
É de manhã. Tem uma cadeira estrategicamente posta ao lado da janela. Não me lembro mais quem foi que a colocou ali. Se foi eu, se foi ele. Sei que fui eu e o outro, eu e ele, unidos por essa tarefa diária. Estou sentado. Não na cadeira, que vejo de uma distância de quatro ou cinco passos, madeira prensada esfarelando, uma lasca. Na beirada da cama, eu. De banho tomado e chinelos, os cabelos muito penteados e limpos. Como um menino de onze anos. Nesse quartinho de pensão, tudo é muito composto, asseado, apesar de simples. A simplicidade é o estofo da limpeza. O quarto dissimula o próprio quarto.
Então, eu entrei de repente dentro do então. Escuto o som que faz com que o outro espere todo dia, em frente à vidraça. Ele ouviu também, ele ouviu primeiro do que eu. É um barulho agudo, um risco vermelho na manhã assexuada, chegando aos nossos ouvidos abafados por outros sons, dos carros, das pessoas, dos passos, dos pensamentos borbulhando em calçadas sujas. É um som que não surpreende, nem a ele e nem a mim, esse giz de cera em paredes. Um som que evolui num crescendo, atinge a base alta, e em seguida definha, como se nunca tivesse começado. Como se tudo dentro desse quarto e dentro de nós dois se organizasse por alguns segundos para ouvir esse som, esse sinal, sem que a gente enlouqueça, sem que a gente aperte os dentes com força, com ânsia. Retirando cuidadosamente as cascas endurecidas de um cancro antigo que ainda não cicatrizou. Então, ouvimos o som. Fiquei ainda alguns segundos na cama, o corpo trêmulo, suando as mãos. Desci os olhos, vi o meu próprio pé magro e descalço, sobre o tapetinho áspero. Quando ergui os olhos, o outro já tinha se levantado e sentado na cadeira ao lado da janela.
A vidraça não é encardida. Ao contrário, ela é intimamente reveladora.
A silhueta magra recortada de encontro ao vidro, interrompendo quietamente a impressão que surge, olhando por dentro desse quarto, de que a manhã não rodopia como deveria, de que não obedece ao seu próprio mecanismo neutro. Ele está sentado na cadeira, diante da janela, olhando a rua. Com as mãos ossudas e um pouco tortas pousadas sobre o joelho. Aperta os olhos com os dedos, por um instante, como se não tivesse dormido direito. Como se não suportasse. Levanta os olhos, e fita o por detrás da transparência opaca.
Ele olha o outro lado da rua. Pessoas passam, numa mistura neutra de indiferenças. Mas o que mais o interessa coagulou-se na calçada oposta, como o amontoado de nata gordurosa e amarelecida que escapa da colher que colhe, e se reúne em um canto do vasilhame, acovardada e asquerosa. São um punhado de pontos escuros, dezenas deles, tão juntos e condensados que formam uma massa compacta de ausência de luz, apesar do começo da manhã. Como um jato de sementes negras. Eles brotam de uma espécie de bojo informe e desfocado, porejam como gotas, na superfície desatenta do dia. Primeiramente alguns, vacilantes e desajeitados, em seguida eles se movimentam e se atropelam, juntam-se em formas e retas amparadas por uma inocência cínica. Ele coça o pescoço, sente o próprio olhar estatelado diante dessa falta de entendimento. Permanece imóvel na cadeira, eu desvio os olhos para o par de sapatos marrons encolhidos num canto do quarto. Os sapatos oferecem uma oportunidade de organização diária, de um estar dentro da vida que, apenas em si mesmo, tem a capacidade de esconder o que ele realmente é. Todos os dias, ele calça o sapato com lentidão desnecessária, mergulhando o corpo no líquido cotidiano do gesto, e saindo limpo, incólume. Mas está descalço, agora. Com os pés nus, no assoalho morno de madeira. Eu estou sentado na cama. A colcha com flores avermelhadas e de uma intensidade punitiva e dolorida. Estico as costas, é de manhã.
Os pontos escuros perpetuam-se pelos dias em ruas, calçadas, casas, bairros, escolas, prédios. Ele um dia tentou fugir, esmigalhado pela composição invisível de uma Lei. Não funcionou. Agora, descalço, destacado contra a vidraça, ele observa. Já começou a manipular o próprio pênis sobre a calça do pijama.
Ele não quer olhar. Ele não quer olhar, porque ele sabe que eles não querem que ele olhe. Eles não querem que ele olhe porque eles sabem que ele quer olhar. E então, ele olha. Ele olha, com os olhos deles em cima dele.
Liberta o pênis da calça do pijama, aproxima um pouco a cortina a fim de esconder melhor o rosto, e inicia o movimento que a Lei não permite, mas que não pode evitar. Os pontos escuros ainda reúnem-se em torno de uma estrutura invisível, colônia de fungos, mas, no entanto, começam a se dispersar. Ele precisa agir rápido. O pênis rosado e escuro, cheirando a sabonete, é apertado pela mão direita, em um movimento sucessivo que, na realidade, não parece movimento, é como se a mão tivesse se detido sobre a glande pequena e estacionado, trêmula e segura. Ele não sente vergonha de se masturbar, na minha presença. Eu sequer consigo tirar os olhos desse limiar, desse extremo embebido no prosaísmo. Minhas costas doem, há quanto tempo estou sentado ? Levanto os olhos, a movimentação do pênis na mão dele tornou-se mais frenética. A dispersão completa dos pontos escuros começou, e ele precisa justificá-la, de alguma forma. De repente, ouço o estertor de todos os dias, vejo o esperma parco e grosso brotar do movimento, o corpo dele em arco ridículo sobre a cadeira, o rosto voltado para a vidraça. Em seguida, o suspiro profundo, cansado, impregnado da transgressão da Lei. Minhas costas doem, é de manhã, estou cansado. Inclino o corpo sobre a cama, sinto o alívio da coluna vertebral, e de alguma coisa, que não consigo nomear. O teto de tabuinhas velhas. Há um rombo escuro, no canto.
É de manhã, a conclusão morna do tempo.
domingo, 9 de dezembro de 2012
Lâmina
Não que eu não queira usar óculos escuros, ouvir Johnny Cash
Não que eu não queira tomar milk-shake de morango
Não que eu não queira ver um filme do Win Wenders acompanhado.
Não que não eu queira.
Há apenas a geometria exata de algo incompreensível
e a tigela com seis maçãs verdes amargas e sumarentas sobre a mesa.
Não que eu não queira fazer cálculos, contas.
Não que eu não queira ler o jornal,
descalço no tapete do sala.
Não que eu não queira brincar de enxergar o mundo, lilás
através do papel de sonho de valsa.
Não que eu não queira.
É que existe uma estrutura opaca,
a espinha dorsal do existir
esmigalhada por papéis, pausas,
espantos e abstrações.
Não que eu não queira não preparar o jantar
discos de Joni Mitchell, vinhos, aspargos, e braços esbarrando
na cumplicidade latente que não se revela.
Não que eu não queira riscar teu nome à giz em todos os muros
Não que eu não queira ser preso, assaltado.
Não que eu não queira perfurar teus olhos com a lâmina aguda dos meus.
Somos Édipos mundanos, com apartamentos, crediários, olheiras.
Não que eu não queira.
Há apenas a capacidade dos meus ouvidos serem atentos, o suicídio
do dia, indo de encontro ao corredor escuro da noite.
Não que eu não queira fracassar até o final
Não que eu não queira vencer até o final
Não que eu não queira escrever até o final
Não que eu não queira viver até o final.
Mas é que alguma coisa dentro de mim
continua acordada, mesmo enquanto durmo
insone, insana,
peremptória.
Não que eu não queira.
Não que eu não quero.
Apenas presentifiquei subjuntivos,
revesti-os com a massa de cimento
cinza dos dias.
Não que eu não queira.
E, no entanto,
apanhei a maçã verde sobre a mesa e cravei os dentes, subitamente
sentindo a engrenagem do dia soltar-se em alguma parte.
Não que eu não quisesse desobedecer a lei da manhã.
Enfrentei a natureza morta da materialidade,
um espelho, espaços .
domingo, 1 de julho de 2012
O gato
- Mataram o Chico.
Tirei os olhos do copo de café pelando na minha frente, olhei o rosto marcado e abrupto da minha mãe, por entre a fumaça.
- O quê ? - eu perguntei, espantado.
Ela despejou o conteúdo negro e asqueroso do coador de café dentro da pia, abriu a torneira deixando escorrer a água e disse, de costas pra mim :
- O Chico. Mataram ele.
Jogou um resto de café envelhecido, enxaguou o bule de alumínio e colocou-o no aparador. Em seguida, secou as mãos no guardanapo, as mãos trêmulas, sem olhar para mim.
- Judiação - ela disse.
- Mas como ? - perguntei. E o cheiro de café aguado e de óleo de fritura que impregnam a cozinha daqui de casa desde sempre, mais o choque com a notícia da morte do Chico, me nausearam o estômago. Minha mãe parou diante da mesa, aparou meticulosamente os farelos de bolo espalhados sobre a toalha, jogou na pia. Mas o copo de leite sujo e a garrafa térmica. Ela retirou tudo, impaciente com a minha demora no café, abriu novamente a torneira.
- Onde que ele tá, o Chico ? -. E apenas nesse instante percebi que apertava o copo de requeijão cheio de café com força suficiente para quebrá-lo.
- Como eu não sei quem foi – respondeu a minha mãe. – Só sei que na hora que eu abri a porta da cozinha hoje de manhã, ele tava estirado perto das caixas de papelão que o seu tio trouxe, a boquinha toda roxa e o corpo torcido, duro que nem um pedaço de pau. Ele veio morrer aqui, o coitadinho. E nem barulho fez, morreu quieto. O veneno deve ter estourado ele todo por dentro.
Eu fiquei olhando para ela. Os cabelos pretos de tinta e desalinhados, entremeados por faixas de cabelo branco escasseando, o rosto de apenas 53 anos devastado, a boca amarga e sem lábio, mas o corpo ainda sólido. Ela repetiu :
- Judiação o que fizeram com o Chico. Mas quem fez essa ruindade, ainda paga. Que Deus é justo.
Eu fiquei em silêncio. Tomei um gole do café agora morno, mordi um pedaço do bolo de cenoura com aquela cobertura gordurosa de chocolate, tentando engolir a sensação de terror e perda, depois de ouvir aquilo. E mesmo essa necessidade da minha mãe tem de subir em cima das coisas e sentenciar em nome de Deus, me deixou um pouco irritado. Ela apanhou a vassoura, começou a raspar o chão com força, simulando empenho, entregue à possibilidade de que eu falasse mais alguma coisa, de que eu perguntasse mais. Tomei o último gole de café sentindo o arrepio do nojo. Levantei da cadeira, enxaguei o copo, ela veio para perto de mim sempre varrendo, disputando o espaço, pulei o amontoado de ciscos no meio da cozinha.
- Onde que ele tá, o gato ? – perguntei.
- Tá ali, perto do tanquinho. Eu trouxe ele – ela respondeu.
Abri a porta dos fundos. O Chico estava lá, esticado, deitado em cima de um pedaço de saco de estopa. Não fosse a maneira que ele tinha de dormir enrolado, parecia que estava só dormindo. Agachei perto e fiquei olhando ele. Senti um medo tão grande, um desamparo, uma sensação tão terrível, que nem dá para explicar. Os olhos do Chico estavam abertos, esverdeados, apagados.
- Acho que você vai ter que pegar a bicicleta e sair pra jogar ele em algum terreno por aí – minha mãe disse, atrás de mim. Eu fingi não ter ouvido. Eu sentia ela ainda parada na porta da cozinha, me olhando olhar o gato, mas não falei nada. Depois ela se afastou, varrendo ainda.
O Chico era um gato que morava com a gente há mais de 10 anos. Tinha sido eu quem tinha achado ele, miando sozinho num terreno baldio perto de casa, voltando do serviço. Eu enrolei ele na camisa e trouxe. Era um gatinho pequeno e espoleta, todo cinza rajado, os olhinhos atentos e muito verdes. Eu tinha 28 anos quando encontrei ele, agora tenho 38. E durante todo esse tempo, o Chico morou com a gente. Quando eu peguei ele, ainda não tinha desmamado, então a minha mãe enchia uma seringa de leite e dava na boquinha dele. Ele fazia um barulhinho engraçado quando mamava, a linguinha colada na ponta da seringa, se alimentando. Meu pai, que ainda estava vivo na época, foi quem chiou. Ele não gostava nem de gatos, nem de bicho nenhum. Ficou dias emburrado comigo e com a mãe, por causa do gato. Vivia reclamando que ele ia trazer doença pra casa, ronqueira, que ia encher o sofá de pelos. Eu e a mãe, a gente precisou bater o pé para que o gato ficasse. No começo, eu colocava ele pra dormir numa caixa de papelão, comigo, no meu quarto, para que, caso miasse à noite, não incomodasse o meu pai. Mas ele não miava, ficava quietinho, todo enrolado em si mesmo. A não ser quando a minha mãe aparecia com a seringa de leite. Ele aprontava um berreiro, ficava uma miação. Minha mãe dava muita risada, cuidava do gato como à um filho. Foi num desses momentos em que ela decidiu batizá-lo de Chico. E foi a partir daí que o gato se tornou parte da família, o quarto integrante. Exatamente um ano depois, meu pai morreu. O gatinho galgou uma posição.
Com o tempo, fui percebendo que as relações com a minha mãe, nosso convívio diário, sempre distanciado, agora se davam através do Chico. A gente se aproximou um do outro, com certa cautela, com medo de exagerar importâncias. Às vezes, o Chico deitava no sofá, e eu ia lá e ficava passando a mão nele, até ele começar a roncar. Ele mordia de levinho a minha mão, depois lambia. Minha mãe vinha e sentava no outro sofá e ficava olhando. Outras vezes, era ela que brincava com ele, eu aproveitava e sentava no outro sofá. Principalmente na hora da novela, o Chico reinava entre nós dois. A gente começou a comentar as coisas do gato :
- Hoje ele comeu pouca ração – ela costumava dizer.
- Vamos trocar de ração – eu respondia, meio feliz.
Outras vezes, minha mãe reclamava da quantidade de pelos que ele soltava. Mas eu sabia que ela falava apenas por falar. Eu rapidamente respondia :
- Eu vi na televisão uma vez que a gente tem que escovar o pelo dele, até pra ele mesmo não ter que fazer isso. Que gato quando engole pelo, fica doente.
Dia seguinte, ela escovando o gato com uma escova de cabelos velha.
O Chico servia até como desculpa para que assuntos adormecidos aparecessem entre eu e a minha mãe. Um dia, diante da televisão, enquanto o Chico ronronava interesseiro esfregando o corpo nas minhas pernas, eu comentei :
- A senhora lembra como o pai não gostava de gato ?
O Chico se aproximando e acariciando as pernas cheias de varizes dela foi a deixa para que ela confidenciasse, sem olhar pra mim, mas olhando para o gato :
- Eu lembro. O seu pai não era um homem ruim. O problema dele era a bebida, só isso.
Outra vez, ela usou o gato como pretexto, para perguntar sobre mim :
- E aquele seu amigo, que vinha sempre aqui em casa ?
Fazia tempo que eu tinha terminado aquele relacionamento. Ela sabia, que mãe sempre sabe. Respondi, fingindo um bocejo :
- Ele se mudou. Não mora mais aqui.
A gente se olhou por um momento. Desviamos os olhos, assuntos intocados constrangendo aparências.
E agora, o gato estava morto. Nessa manhã mesmo, minha mãe encontrou um saco, botei o Chico dentro e apanhei a bicicleta. Eu não ia simplesmente jogar ele em qualquer terreno. Abri um buraco e enterrei ele, com saco e tudo. Quando voltei, percebi o nariz vermelho da minha mãe, mas não falei nada. Nem sabia dizer se ela precisava de consolo. As tentativas de consolar ela, no enterro do meu pai saíram desastradas, forçadas, falsificadas. Fui para o meu quarto, espiei o sábado definhando amarelado através da vidraça.
Nessa noite, a casa ficou em pleno silêncio. Minha mãe não ligou a televisão para ver a novela, ficou sentada na sala, as luzes apagadas. Fui jantar. Fiquei olhando o caldo escurecido do feijão no prato, o arroz. Com o Chico ainda vivo, ela viria se sentar na mesa, mastigaria a comida com a calma sôfrega da idade, e seríamos o esboço de alguma coisa. Como se eu sentisse a necessidade de me agarrar ao pouco que o gato tinha levado de nós dois, o último vestígio de um sentimento que quase nunca existiu, parei diante da porta da sala às escuras :
- Mãe, a senhora não vai vir jantar ?
- Já to indo, filho – ela respondeu.
Jantamos então. Mergulhados num silêncio que eu pensava que tivesse acabado.
Tirei os olhos do copo de café pelando na minha frente, olhei o rosto marcado e abrupto da minha mãe, por entre a fumaça.
- O quê ? - eu perguntei, espantado.
Ela despejou o conteúdo negro e asqueroso do coador de café dentro da pia, abriu a torneira deixando escorrer a água e disse, de costas pra mim :
- O Chico. Mataram ele.
Jogou um resto de café envelhecido, enxaguou o bule de alumínio e colocou-o no aparador. Em seguida, secou as mãos no guardanapo, as mãos trêmulas, sem olhar para mim.
- Judiação - ela disse.
- Mas como ? - perguntei. E o cheiro de café aguado e de óleo de fritura que impregnam a cozinha daqui de casa desde sempre, mais o choque com a notícia da morte do Chico, me nausearam o estômago. Minha mãe parou diante da mesa, aparou meticulosamente os farelos de bolo espalhados sobre a toalha, jogou na pia. Mas o copo de leite sujo e a garrafa térmica. Ela retirou tudo, impaciente com a minha demora no café, abriu novamente a torneira.
- Onde que ele tá, o Chico ? -. E apenas nesse instante percebi que apertava o copo de requeijão cheio de café com força suficiente para quebrá-lo.
- Como eu não sei quem foi – respondeu a minha mãe. – Só sei que na hora que eu abri a porta da cozinha hoje de manhã, ele tava estirado perto das caixas de papelão que o seu tio trouxe, a boquinha toda roxa e o corpo torcido, duro que nem um pedaço de pau. Ele veio morrer aqui, o coitadinho. E nem barulho fez, morreu quieto. O veneno deve ter estourado ele todo por dentro.
Eu fiquei olhando para ela. Os cabelos pretos de tinta e desalinhados, entremeados por faixas de cabelo branco escasseando, o rosto de apenas 53 anos devastado, a boca amarga e sem lábio, mas o corpo ainda sólido. Ela repetiu :
- Judiação o que fizeram com o Chico. Mas quem fez essa ruindade, ainda paga. Que Deus é justo.
Eu fiquei em silêncio. Tomei um gole do café agora morno, mordi um pedaço do bolo de cenoura com aquela cobertura gordurosa de chocolate, tentando engolir a sensação de terror e perda, depois de ouvir aquilo. E mesmo essa necessidade da minha mãe tem de subir em cima das coisas e sentenciar em nome de Deus, me deixou um pouco irritado. Ela apanhou a vassoura, começou a raspar o chão com força, simulando empenho, entregue à possibilidade de que eu falasse mais alguma coisa, de que eu perguntasse mais. Tomei o último gole de café sentindo o arrepio do nojo. Levantei da cadeira, enxaguei o copo, ela veio para perto de mim sempre varrendo, disputando o espaço, pulei o amontoado de ciscos no meio da cozinha.
- Onde que ele tá, o gato ? – perguntei.
- Tá ali, perto do tanquinho. Eu trouxe ele – ela respondeu.
Abri a porta dos fundos. O Chico estava lá, esticado, deitado em cima de um pedaço de saco de estopa. Não fosse a maneira que ele tinha de dormir enrolado, parecia que estava só dormindo. Agachei perto e fiquei olhando ele. Senti um medo tão grande, um desamparo, uma sensação tão terrível, que nem dá para explicar. Os olhos do Chico estavam abertos, esverdeados, apagados.
- Acho que você vai ter que pegar a bicicleta e sair pra jogar ele em algum terreno por aí – minha mãe disse, atrás de mim. Eu fingi não ter ouvido. Eu sentia ela ainda parada na porta da cozinha, me olhando olhar o gato, mas não falei nada. Depois ela se afastou, varrendo ainda.
O Chico era um gato que morava com a gente há mais de 10 anos. Tinha sido eu quem tinha achado ele, miando sozinho num terreno baldio perto de casa, voltando do serviço. Eu enrolei ele na camisa e trouxe. Era um gatinho pequeno e espoleta, todo cinza rajado, os olhinhos atentos e muito verdes. Eu tinha 28 anos quando encontrei ele, agora tenho 38. E durante todo esse tempo, o Chico morou com a gente. Quando eu peguei ele, ainda não tinha desmamado, então a minha mãe enchia uma seringa de leite e dava na boquinha dele. Ele fazia um barulhinho engraçado quando mamava, a linguinha colada na ponta da seringa, se alimentando. Meu pai, que ainda estava vivo na época, foi quem chiou. Ele não gostava nem de gatos, nem de bicho nenhum. Ficou dias emburrado comigo e com a mãe, por causa do gato. Vivia reclamando que ele ia trazer doença pra casa, ronqueira, que ia encher o sofá de pelos. Eu e a mãe, a gente precisou bater o pé para que o gato ficasse. No começo, eu colocava ele pra dormir numa caixa de papelão, comigo, no meu quarto, para que, caso miasse à noite, não incomodasse o meu pai. Mas ele não miava, ficava quietinho, todo enrolado em si mesmo. A não ser quando a minha mãe aparecia com a seringa de leite. Ele aprontava um berreiro, ficava uma miação. Minha mãe dava muita risada, cuidava do gato como à um filho. Foi num desses momentos em que ela decidiu batizá-lo de Chico. E foi a partir daí que o gato se tornou parte da família, o quarto integrante. Exatamente um ano depois, meu pai morreu. O gatinho galgou uma posição.
Com o tempo, fui percebendo que as relações com a minha mãe, nosso convívio diário, sempre distanciado, agora se davam através do Chico. A gente se aproximou um do outro, com certa cautela, com medo de exagerar importâncias. Às vezes, o Chico deitava no sofá, e eu ia lá e ficava passando a mão nele, até ele começar a roncar. Ele mordia de levinho a minha mão, depois lambia. Minha mãe vinha e sentava no outro sofá e ficava olhando. Outras vezes, era ela que brincava com ele, eu aproveitava e sentava no outro sofá. Principalmente na hora da novela, o Chico reinava entre nós dois. A gente começou a comentar as coisas do gato :
- Hoje ele comeu pouca ração – ela costumava dizer.
- Vamos trocar de ração – eu respondia, meio feliz.
Outras vezes, minha mãe reclamava da quantidade de pelos que ele soltava. Mas eu sabia que ela falava apenas por falar. Eu rapidamente respondia :
- Eu vi na televisão uma vez que a gente tem que escovar o pelo dele, até pra ele mesmo não ter que fazer isso. Que gato quando engole pelo, fica doente.
Dia seguinte, ela escovando o gato com uma escova de cabelos velha.
O Chico servia até como desculpa para que assuntos adormecidos aparecessem entre eu e a minha mãe. Um dia, diante da televisão, enquanto o Chico ronronava interesseiro esfregando o corpo nas minhas pernas, eu comentei :
- A senhora lembra como o pai não gostava de gato ?
O Chico se aproximando e acariciando as pernas cheias de varizes dela foi a deixa para que ela confidenciasse, sem olhar pra mim, mas olhando para o gato :
- Eu lembro. O seu pai não era um homem ruim. O problema dele era a bebida, só isso.
Outra vez, ela usou o gato como pretexto, para perguntar sobre mim :
- E aquele seu amigo, que vinha sempre aqui em casa ?
Fazia tempo que eu tinha terminado aquele relacionamento. Ela sabia, que mãe sempre sabe. Respondi, fingindo um bocejo :
- Ele se mudou. Não mora mais aqui.
A gente se olhou por um momento. Desviamos os olhos, assuntos intocados constrangendo aparências.
E agora, o gato estava morto. Nessa manhã mesmo, minha mãe encontrou um saco, botei o Chico dentro e apanhei a bicicleta. Eu não ia simplesmente jogar ele em qualquer terreno. Abri um buraco e enterrei ele, com saco e tudo. Quando voltei, percebi o nariz vermelho da minha mãe, mas não falei nada. Nem sabia dizer se ela precisava de consolo. As tentativas de consolar ela, no enterro do meu pai saíram desastradas, forçadas, falsificadas. Fui para o meu quarto, espiei o sábado definhando amarelado através da vidraça.
Nessa noite, a casa ficou em pleno silêncio. Minha mãe não ligou a televisão para ver a novela, ficou sentada na sala, as luzes apagadas. Fui jantar. Fiquei olhando o caldo escurecido do feijão no prato, o arroz. Com o Chico ainda vivo, ela viria se sentar na mesa, mastigaria a comida com a calma sôfrega da idade, e seríamos o esboço de alguma coisa. Como se eu sentisse a necessidade de me agarrar ao pouco que o gato tinha levado de nós dois, o último vestígio de um sentimento que quase nunca existiu, parei diante da porta da sala às escuras :
- Mãe, a senhora não vai vir jantar ?
- Já to indo, filho – ela respondeu.
Jantamos então. Mergulhados num silêncio que eu pensava que tivesse acabado.
terça-feira, 26 de junho de 2012
Pinatubo
As superfícies escuras dentro de mim,
como ilhas vulcânicas
espalhadas
no tectonismo violento dos nossos corpos.
Falhas, dobramentos modernos.
San Andreas em mim.
Quando o corpo dele atingir o meu,
cairei dentro do mar.
Lava branca.
O arquipélago
finalmente
íntimo.
O campo de lava
solitário
dentro dele.
como ilhas vulcânicas
espalhadas
no tectonismo violento dos nossos corpos.
Falhas, dobramentos modernos.
San Andreas em mim.
Quando o corpo dele atingir o meu,
cairei dentro do mar.
Lava branca.
O arquipélago
finalmente
íntimo.
O campo de lava
solitário
dentro dele.
sábado, 23 de junho de 2012
Hotel Amargo
Surpreendeu-se com os olhos fixos no teto. O olhar dele, que antes percorria inquieto as coisas e o mundo, as coisas dentro do mundo, ou o mundo dentro das coisas, agora dera para estatelar o nada. Olhou para dentro de si mesmo. O tempo correu. Surpreendeu-se olhando para dentro de si mesmo. Desviou os olhos. Pensou que deveria acender a luz do quarto, passava das seis horas da tarde, o escuro aparecendo e dramatizando tudo, pinceladas expressionistas sobre sua incapacidade. Paredes, móveis. Permaneceu deitado, porém. Fitou os pés magros aparecendo na barra da calça do pijama, brincou um pouco com os pelos lisos da barriga. Cruzou os braços sobre o peito, tentando encapar o movimento com o embrulho da superioridade, mas conseguia ouvir o barulho do chuveiro em que o outro se enfiara, imaginava os olhos dele ardendo por causa do xampu barato. Sentou-se na cama, bruscamente.
Era estranho. O quanto sua capacidade de enxergar aumentara, a partir do momento em que passou a usar os olhos dele. Quando era criança, costumava achar que o mundo terminava naquela linha, naquele limite redondo que a vista alcançava. Ficava imaginando que se a pessoa desse um passo além do horizonte, essa pessoa cairia. O que antes era apenas intuição, agora se tornava uma verdade. Ele foi além, e caiu.
O par de tênis num canto do quarto, as meias sujas estranguladas. Ele pensou se de repente viver não seria estar com as meias sempre sujas ou encharcadas. Riu do próprio pensamento. Saiu da cama. Não cruzou os braços, conformado.
O corpo do seu homem debaixo do chuveiro. Lembrou do gosto da porra dele, dos cigarros partilhados, do campari, do aperto, da cicatriz ridícula e asquerosa nas costas dele, mas que beijava com uma ternura assustadora para si mesmo. Pensando melhor, agora achava a ideia de horas antes completamente absurda. Encontrar com ele em meio ao cheiro de mofo asséptico daquele quarto de hotel, fungos e eucaliptos. Agora, depois de tudo, o outro se enxugava com a toalha puída e encardida, como se não estivesse dentro de uma situação nova, como se fizesse isso desde sempre, libertando-se do "nós" com muito mais facilidade do que ele. A solidão de ambos de repente individualizava-se ainda mais. Esperou que ele saísse do banheiro.
Andou de um lado para outro do quarto, roendo as unhas, os olhos úmidos. O tempo passava. Descobriu que a dor do mundo era essa : o tempo passava, e as dores permaneciam. Leu um parágrafo de um livro do Jean Genet que havia trazido para mostrar pra ele. Mas o outro nem se importara, não era dado à poesia. Gostar de alguém talvez significasse sentar no centro de um poço escuro. Colocou o livro de volta no criado-mudo, acendeu um cigarro, mirando-se no espelho embaciado, ao lado da porta.
O outro apareceu. Saiu do banheiro já completamente vestido, talvez para humilhá-lo. Ambos desviaram os olhos, sentados que estavam em escuridões cheias de água e limo. Dissimulavam, com medo de perder. Trocaram palavras entre mentiras e fumaças de cigarros. Apesar de tudo, apesar da dor, apesar da morte existindo dentro de cada um deles, houve um movimento inesperado em direção à algo em comum, uma ânsia em comum, um mistério em comum. O tempo passou. Anos se passaram. Deixaram de existir.
Era estranho. O quanto sua capacidade de enxergar aumentara, a partir do momento em que passou a usar os olhos dele. Quando era criança, costumava achar que o mundo terminava naquela linha, naquele limite redondo que a vista alcançava. Ficava imaginando que se a pessoa desse um passo além do horizonte, essa pessoa cairia. O que antes era apenas intuição, agora se tornava uma verdade. Ele foi além, e caiu.
O par de tênis num canto do quarto, as meias sujas estranguladas. Ele pensou se de repente viver não seria estar com as meias sempre sujas ou encharcadas. Riu do próprio pensamento. Saiu da cama. Não cruzou os braços, conformado.
O corpo do seu homem debaixo do chuveiro. Lembrou do gosto da porra dele, dos cigarros partilhados, do campari, do aperto, da cicatriz ridícula e asquerosa nas costas dele, mas que beijava com uma ternura assustadora para si mesmo. Pensando melhor, agora achava a ideia de horas antes completamente absurda. Encontrar com ele em meio ao cheiro de mofo asséptico daquele quarto de hotel, fungos e eucaliptos. Agora, depois de tudo, o outro se enxugava com a toalha puída e encardida, como se não estivesse dentro de uma situação nova, como se fizesse isso desde sempre, libertando-se do "nós" com muito mais facilidade do que ele. A solidão de ambos de repente individualizava-se ainda mais. Esperou que ele saísse do banheiro.
Andou de um lado para outro do quarto, roendo as unhas, os olhos úmidos. O tempo passava. Descobriu que a dor do mundo era essa : o tempo passava, e as dores permaneciam. Leu um parágrafo de um livro do Jean Genet que havia trazido para mostrar pra ele. Mas o outro nem se importara, não era dado à poesia. Gostar de alguém talvez significasse sentar no centro de um poço escuro. Colocou o livro de volta no criado-mudo, acendeu um cigarro, mirando-se no espelho embaciado, ao lado da porta.
O outro apareceu. Saiu do banheiro já completamente vestido, talvez para humilhá-lo. Ambos desviaram os olhos, sentados que estavam em escuridões cheias de água e limo. Dissimulavam, com medo de perder. Trocaram palavras entre mentiras e fumaças de cigarros. Apesar de tudo, apesar da dor, apesar da morte existindo dentro de cada um deles, houve um movimento inesperado em direção à algo em comum, uma ânsia em comum, um mistério em comum. O tempo passou. Anos se passaram. Deixaram de existir.
Dois lados
I - Fluxo
O barulho da chuva era tão alto que não conseguíamos nos ouvir, desejos torrenciais, eu me lembro que você disse alguma coisa sobre a gente, sobre estar juntos, sobre
ser feliz, mas as gotas grossas e pesadas nos separavam como abismos, eu me lembro de ter perguntado bem alto O que foi que você disse enquanto passava a mão no rosto para represar aqueles aquedutos correndo, além do fluxo de expressões ansiosas que eu queria esconder de você, parados naquela avenida quase movimentada, os bares iluminados ainda abertos, eu me aproximei e toquei de leve o seu rosto pulando corajosamente gargantas e ravinas, éramos dois homens nos tocando naquele teatro de Noé, e não havia arca, e nunca haverá arca, não havia lugar onde pudéssemos nos abrigar daquele dilúvio, mas a pergunta era : queríamos isso realmente ? Talvez se a gente se escondesse daquele aguaceiro, talvez isso significasse a ruptura do momento, ou então passássemos a nos ouvir melhor e no nosso caso compreender era perigoso, você me perguntou se eu estava a fim de me render ao clichê e juntarmos as nossas bocas na chuva, beijo cinematográfico, hudsons e newmans. Eu disse que sim, que só faltava alguém com aquela plaquinha divertida de claquete para dizer Ação e então nos beijaríamos bem Hollywood debaixo da chuva, você me respondeu qualquer coisa como A chuva é a nossa diretora e eu disse A chuva é a incontinência urinária de Deus, e nós rimos muito, eu me aproximei de você, olhei no fundo da tua boca e beijei o cristalino dos teus olhos, esses olhos estranhos e belos, ficamos assim parados nesse teatrinho de representações, você estendeu a mão e tocou a minha barba, a partir disso mundos cederam em alguma parte,e por um momento eu pensei que sem fugir da chuva eu fugia da chuva, que estando com você eu fugia do chuvisqueiro permanente dentro de mim, você fugia da sua garoa interna, os carros passavam, a chuva continuava, as pessoas iam embora, deviam estranhar aqueles dois caras estatelados por atrações mútuas, os faróis iluminando esses dois perdidos na noite suja que se encontraram, mas faltava muito pouco, a minha boca já diante da sua, eu podia ver claramente a fenda entre seus dentes, o bafo de cerveja e halls se misturando, as bocas quase se encontrando, nós já tremíamos de frio, ambos ensopados, Amazonas e Orinoco, tua boca encostou na minha, minha boca encostou na tua, descarga elétrica no diapasão dos nossos corpos, nossas línguas se enroscaram num quente, redundante e triste beijo, um carro que passou nos iluminou como quando a luz recai sobre ao atores, música dos Smiths tocando alto and if you must go to work tomorrow, nossa línguas enroscadas naquele embate desmitificador de projeções, meu halls passou para a tua boca, eu me embebedei com o seu hálito, e nos olhamos, e ficamos parados na chuva abraçados e sim,apesar do medo, apesar das dores, apesar de tudo, éramos o melhor casal de nossa espécie.
II – Coágulo
Caminhando com as mãos no bolso, a roupa encharcada colada ao corpo, ele prestava atenção na sinfonia pós-chuva : a enxurrada correndo no meio-fio, as gotas frias pingando dos tetos e marquises, um ou outro trovão retardatário e indignado. Devia ser umas 6 horas da manhã de domingo, poucos carros passando como bêbados. Lembrou do beijo que trocara com ele, horas antes. Lembrar não significava que tivesse esquecido por um instante aquele instante, mas sim que a imagem e o gosto aparecia a cada momento maior e renovada e acrescida na sua cabeça. Sabia que alguma coisa mudaria a partir de agora. Que alguma coisa estava se aproximando da sua vida. Como não sabia nomear isso, chamava de felicidade. E saltava poças sem se preocupar com o tênis encharcado, olhava o céu que resmungava ainda com nuvens escuras ( provavelmente choveria o dia todo ), os prédios, as ruas, o lixo, a feiúra feita de cimentos e vidro. Uma alegria Gene Kelly. Agora iria para casa, dormiria até tarde, depois acordaria com o barulho do silêncio da casa, os pais vendo um filme na sala e o pensamento no beijo, o pensamento nele, no beijo debaixo da chuva. Alguma coisa havia mudado. Definitivamente.
E algo importante estava se aproximando da sua vida, ele repetiu a si mesmo, estremecendo no ar frio.
O som que prenunciou o pontapé nas costas foi o de passos rápidos atrás de si. Não teve tempo de virar-se, a dor lancinante, a falta de ar, tentou puxar o fôlego. Mas o primeiro soco emergiu com força de alguma parte, um soco no queixo, em seguida o murro violento nas narinas, potencializado por algo metálico e frio. O sangue esguichou, ele pousou a mão no nariz e não conseguia acreditar no que estava enxergando. Tentou instintivamente se defender, procurando perceber o que estava acontecendo. Conseguiu divisar quatro vultos ao seu redor, como se esperassem. O chão dançava à sua frente. Ele sabia que não poderia cair, que se caísse seria pior. Mas um outro pontapé, ainda mais violento que o primeiro, dessa vez na boca do estômago, fez com que ele se inclinasse em posição fetal, cuspindo. Não suportou o próprio peso, caiu. Começou a saraivada de chutes. Protegeu a cabeça com as mãos. Estou sendo espancado, ele pensou. Mas havia o beijo. O beijo de horas antes. Que não poderia mais viver da mesma forma, depois daquilo tudo. Que não poderia esconder mais nada, nem de si mesmo, nem dos pais, nem dos amigos, nem do espelho, nem da vida. Tomou um chute violento na boca, ouviu o som assustador dos dentes se esfacelando, o gosto acre de sangue, a língua enrolando-se, uma massa vermelha. Tentou sentar para cuspir os cacos de dentes, apoiou a mão no chão e fez o movimento, os homens riram, chutaram-lhe o braço. Ele caiu de novo. Mas havia o beijo ainda.
Eles chutavam o rapaz quase desacordado no chão. As vitrines das lojas ao redor acompanhavam a cena horrorizadas e sonolentas, como se estivessem em choque por aquilo tudo se refletir em suas superfícies limpas. Elas refletiam a cena. E sorriam, cínicas que eram. Porque existia um segredo em tudo aquilo, um bojo, um vernáculo. O grande mal do mundo é que há espelhos em toda parte. A gente se olha, e tenta não enxergar, ou enxerga o que quer, ou simplesmente não olha. Aqueles homens enxergavam o que queriam. Como se buscassem o fim de algo, um acordo entre cavalheiros dentro da vida. Mas as vidraças refletiam tudo, a gargalhada transparente.
No chão, ele sentiu que estava perdendo a consciência. Ouvia os xingamentos. Saliva e sangue escorriam da boca, enquanto ele sentia o cheiro ambíguo das ruas molhadas de chuva, poluição, merda de cachorro, infelicidades, neuroses, cigarros. Percebeu então uma movimentação estranha ao redor de si, os chutes interromperam-se bruscamente. Ouviu uma voz de homem gritando ao longe, numa censura apavorada. Os agressores correram. Ele desmaiou.
Que existe sempre alguma coisa se aproximando das nossas vidas.
O barulho da chuva era tão alto que não conseguíamos nos ouvir, desejos torrenciais, eu me lembro que você disse alguma coisa sobre a gente, sobre estar juntos, sobre
ser feliz, mas as gotas grossas e pesadas nos separavam como abismos, eu me lembro de ter perguntado bem alto O que foi que você disse enquanto passava a mão no rosto para represar aqueles aquedutos correndo, além do fluxo de expressões ansiosas que eu queria esconder de você, parados naquela avenida quase movimentada, os bares iluminados ainda abertos, eu me aproximei e toquei de leve o seu rosto pulando corajosamente gargantas e ravinas, éramos dois homens nos tocando naquele teatro de Noé, e não havia arca, e nunca haverá arca, não havia lugar onde pudéssemos nos abrigar daquele dilúvio, mas a pergunta era : queríamos isso realmente ? Talvez se a gente se escondesse daquele aguaceiro, talvez isso significasse a ruptura do momento, ou então passássemos a nos ouvir melhor e no nosso caso compreender era perigoso, você me perguntou se eu estava a fim de me render ao clichê e juntarmos as nossas bocas na chuva, beijo cinematográfico, hudsons e newmans. Eu disse que sim, que só faltava alguém com aquela plaquinha divertida de claquete para dizer Ação e então nos beijaríamos bem Hollywood debaixo da chuva, você me respondeu qualquer coisa como A chuva é a nossa diretora e eu disse A chuva é a incontinência urinária de Deus, e nós rimos muito, eu me aproximei de você, olhei no fundo da tua boca e beijei o cristalino dos teus olhos, esses olhos estranhos e belos, ficamos assim parados nesse teatrinho de representações, você estendeu a mão e tocou a minha barba, a partir disso mundos cederam em alguma parte,e por um momento eu pensei que sem fugir da chuva eu fugia da chuva, que estando com você eu fugia do chuvisqueiro permanente dentro de mim, você fugia da sua garoa interna, os carros passavam, a chuva continuava, as pessoas iam embora, deviam estranhar aqueles dois caras estatelados por atrações mútuas, os faróis iluminando esses dois perdidos na noite suja que se encontraram, mas faltava muito pouco, a minha boca já diante da sua, eu podia ver claramente a fenda entre seus dentes, o bafo de cerveja e halls se misturando, as bocas quase se encontrando, nós já tremíamos de frio, ambos ensopados, Amazonas e Orinoco, tua boca encostou na minha, minha boca encostou na tua, descarga elétrica no diapasão dos nossos corpos, nossas línguas se enroscaram num quente, redundante e triste beijo, um carro que passou nos iluminou como quando a luz recai sobre ao atores, música dos Smiths tocando alto and if you must go to work tomorrow, nossa línguas enroscadas naquele embate desmitificador de projeções, meu halls passou para a tua boca, eu me embebedei com o seu hálito, e nos olhamos, e ficamos parados na chuva abraçados e sim,apesar do medo, apesar das dores, apesar de tudo, éramos o melhor casal de nossa espécie.
II – Coágulo
Caminhando com as mãos no bolso, a roupa encharcada colada ao corpo, ele prestava atenção na sinfonia pós-chuva : a enxurrada correndo no meio-fio, as gotas frias pingando dos tetos e marquises, um ou outro trovão retardatário e indignado. Devia ser umas 6 horas da manhã de domingo, poucos carros passando como bêbados. Lembrou do beijo que trocara com ele, horas antes. Lembrar não significava que tivesse esquecido por um instante aquele instante, mas sim que a imagem e o gosto aparecia a cada momento maior e renovada e acrescida na sua cabeça. Sabia que alguma coisa mudaria a partir de agora. Que alguma coisa estava se aproximando da sua vida. Como não sabia nomear isso, chamava de felicidade. E saltava poças sem se preocupar com o tênis encharcado, olhava o céu que resmungava ainda com nuvens escuras ( provavelmente choveria o dia todo ), os prédios, as ruas, o lixo, a feiúra feita de cimentos e vidro. Uma alegria Gene Kelly. Agora iria para casa, dormiria até tarde, depois acordaria com o barulho do silêncio da casa, os pais vendo um filme na sala e o pensamento no beijo, o pensamento nele, no beijo debaixo da chuva. Alguma coisa havia mudado. Definitivamente.
E algo importante estava se aproximando da sua vida, ele repetiu a si mesmo, estremecendo no ar frio.
O som que prenunciou o pontapé nas costas foi o de passos rápidos atrás de si. Não teve tempo de virar-se, a dor lancinante, a falta de ar, tentou puxar o fôlego. Mas o primeiro soco emergiu com força de alguma parte, um soco no queixo, em seguida o murro violento nas narinas, potencializado por algo metálico e frio. O sangue esguichou, ele pousou a mão no nariz e não conseguia acreditar no que estava enxergando. Tentou instintivamente se defender, procurando perceber o que estava acontecendo. Conseguiu divisar quatro vultos ao seu redor, como se esperassem. O chão dançava à sua frente. Ele sabia que não poderia cair, que se caísse seria pior. Mas um outro pontapé, ainda mais violento que o primeiro, dessa vez na boca do estômago, fez com que ele se inclinasse em posição fetal, cuspindo. Não suportou o próprio peso, caiu. Começou a saraivada de chutes. Protegeu a cabeça com as mãos. Estou sendo espancado, ele pensou. Mas havia o beijo. O beijo de horas antes. Que não poderia mais viver da mesma forma, depois daquilo tudo. Que não poderia esconder mais nada, nem de si mesmo, nem dos pais, nem dos amigos, nem do espelho, nem da vida. Tomou um chute violento na boca, ouviu o som assustador dos dentes se esfacelando, o gosto acre de sangue, a língua enrolando-se, uma massa vermelha. Tentou sentar para cuspir os cacos de dentes, apoiou a mão no chão e fez o movimento, os homens riram, chutaram-lhe o braço. Ele caiu de novo. Mas havia o beijo ainda.
Eles chutavam o rapaz quase desacordado no chão. As vitrines das lojas ao redor acompanhavam a cena horrorizadas e sonolentas, como se estivessem em choque por aquilo tudo se refletir em suas superfícies limpas. Elas refletiam a cena. E sorriam, cínicas que eram. Porque existia um segredo em tudo aquilo, um bojo, um vernáculo. O grande mal do mundo é que há espelhos em toda parte. A gente se olha, e tenta não enxergar, ou enxerga o que quer, ou simplesmente não olha. Aqueles homens enxergavam o que queriam. Como se buscassem o fim de algo, um acordo entre cavalheiros dentro da vida. Mas as vidraças refletiam tudo, a gargalhada transparente.
No chão, ele sentiu que estava perdendo a consciência. Ouvia os xingamentos. Saliva e sangue escorriam da boca, enquanto ele sentia o cheiro ambíguo das ruas molhadas de chuva, poluição, merda de cachorro, infelicidades, neuroses, cigarros. Percebeu então uma movimentação estranha ao redor de si, os chutes interromperam-se bruscamente. Ouviu uma voz de homem gritando ao longe, numa censura apavorada. Os agressores correram. Ele desmaiou.
Que existe sempre alguma coisa se aproximando das nossas vidas.
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