domingo, 18 de março de 2012
As noites de domingo
Noites de domingo. As noites de domingo são mais escuras do que as outras. São intrínsecamente outonais, tristes. Quando chove, numa noite de domingo, as gotas são mais frias, o vento mais gelado, as sombras da noite ficam mais estateladas contra os muros, os olhares das pessoas mais fugitivos, mais imersos em escapismos fáceis. Porque seria bom. Seria bom que pudéssemos fugir do significado dessas noites. Seria ótimo que esquecessemos o som irritante e melancólico da abertura do Fantástico. Seria bom que pudéssemos recomeçar o final de semana. Recomeçar o final. Essa é a grande angústia imiscuída nas noites de domingo. Estamos recomeçando algo que um dia vai acabar. Vem daí a melancolia. Vem daí a necessidade de esquecer. Os finais de semana são como bolhas de sabão coloridas que estouram no domingo à noite. E, no domingo à noite, novos planos e promessas são feitos, os cadernos das crianças novamente arrumados, a roupa para o trabalho meticulosamente separada,pela casa já vazia de parentes, amigos ou vizinhos. Tentamos reorganizar a nós mesmos, soltos no espaço como ficamos, depois que as bolhas de sabão estouram. E então batemos almofadas, apanhamos brinquedos espalhados pela sala, o resto da pizza ou da macarronada vai para o micro-ondas, apanhamos os restos do dia. Tudo isso em nome do amanhã. Ainda bem que temos o amanhã.
Noites de domingo são tristes porque são a lembrança implícita. De que tudo tem um fim. Mas há sempre o recomeço.
E eis que surge o tempo, esse garoto travesso, fabricando bolhas de sabão coloridas. Temos então a chance de sermos mais felizes. Nem que seja só de brincadeirinha.
para Catarina, minha mãe
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