" E cada encontro nos lembrava que o único roteiro é o corpo.
O corpo."
João Gilberto Noll, " A fúria do corpo "
Pedrinho esperou o momento em que a porta do banheiro foi trancada, o rangido seco da taramela assegurando o conceito final de intimidade. Tinha aguardado, impaciente, a volta " dele " do serviço, distraindo- se com legos coloridos e quebrados, construindo o corpo de um homem e manuseando- o com uma crueldade impercebida. Quando " ele "chegava do trabalho, Pedrinho acompanhava ressabiado o ritual do cansaço - as olheiras fundas no rosto barbado e endurecido, o uniforme crestado de cal, um leve carinho com a mãe, o cigarro fumado e as cusparadas amarelas pontilhando o quintal, um ou dois cascudos que Pedrinho recebia aliviado e absolvido - e em seguida viria o necessário banho de todos, o necessário banho " dele ". A solidão deixando de ser assustadora. Prosaísmos.
Em quais paragens encontraria / a foz do fluxo inexato ?
" Ele " era um desses homens feitos de cimento e água, com personalidade de cimento, voz de cimento, sentimentos de cimento, secando no olhar injetado e vermelhecido de dores e vazios. Pedrinho nunca conseguiu marcar seu nome nesse cimento antes fresco. Nem sequer pisar nessa superfície a fim de deixar rastros. Ouviu a mãe cantarolando na cozinha, entre o preparo da janta e a novela das seis, sob a claridade doentia das lâmpadas da casa. Quando " ele " se fechava no banheiro para tomar banho, os barulhos da mãe pela casa recrudesciam, pratos e copos quebravam, o arroz queimava. A s panelas chocavam- se, irônicas. Aproveitava então a distração cínica da mãe, punha- se diante da porta do banheiro e espiava, esperando sempre a queda brusca de luz que prenunciaria o chuveiro sendo ligado. Então cutucava o buraco escondido, feito estratégicamente com a ponta da chave de fenda, tirava o pedaço de pano preto cortado no tamanho de uma vontade sem nome, e espiava. Ele manipulava o pênis sobre a bermuda, enquanto espiava o banho " dele ".
Há um crepúsculo galopando em alguma parte.
Pedrinho parou diante da porta do banheiro, ouviu os sons do chuveiro escorrendo, chuva doméstica. O corpo tremia.
O corpo nu " dele " brilhava na solidão enlouquecida e cotidiana do banheiro. Apanhava o sabonete e deslizava pelo peito e braços curtidos de sol, a água derramando- se em cascatas sobre a barriga protuberante. Sabia que, nessa água já corrompida pelo suor e sujeira do corpo " dele ", o cheiro de azedo já se diluíra, esboço da segurança paterna. Esboço sem produto. No meio das pernas do homem, Pedrinho acompanhava, engolindo saliva, o pênis enrugado e satisfatório, o prepúcio e a glande amargos, molhados, espuma de sabonete nos pentelhos. " Ele " arregaçava o prepúcio num desabrochado higiênico e escrupuloso, depois suspendia e ensaboava o saco. Aquelas bolas gigantescas e leves, escuras, que Pedrinho adivinhava macias ao toque dos dedos, ásperas ao toque da língua, aquele saco encardido e belo que um dia abrigara o seu início. O homem esticava as coxas, aplicava a esponja com fúria. Pedrinho afastou os olhos do buraco, piscou um momento, moveu um pouco os joelhos doloridos.
Escapar do embaraçado da imagem / Tarde demais /Os indícios de transbordamento
a foz do fluxo/ não encontra mais barreiras / escondida que está / das formas e detalhes.
Um prato caiu na cozinha. Ouviu a mãe praguejar.
O banho dele durou uns dez minutos.Os instantes finais se aproximavam. Pedrinho fixa novamente o olho direito no buraco, não há mais vapores de chuveiro nublando vontades, é a limpidez que precede o final. " Ele " inclina- se, enxuga- se com a toalha puída, veste a cueca em um só movimento. Desaparece do campo de visão do menino : a porta vai ser aberta.
Pedrinho tapou o buraco apressadamente, saiu do corredor, entrou no quarto. Acendeu a luz. Rosto vermelho, pênis ultrajado adolescendo. Para no meio do quarto, olha o quarto, sem perceber que não é o quarto que está olhando, mas sim outra coisa. Pedrinho escuta o som dos chinelos " dele " raspando o tapete, imaginou os cabelos penteados e humildes.
Ele olha.
Ele olha.
Uma silhueta escura passa correndo.
Noite.
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