domingo, 9 de dezembro de 2012

Lâmina


Não que eu não queira usar óculos escuros, ouvir Johnny Cash
Não que eu não queira tomar milk-shake de morango
Não que eu não queira ver um filme do Win Wenders acompanhado.
Não que não eu queira.
Há apenas a geometria exata de algo incompreensível
e a tigela com seis maçãs verdes amargas e sumarentas sobre a mesa.

Não que eu não queira fazer cálculos, contas.
Não que eu não queira ler o jornal,
descalço no tapete do sala.
Não que eu não queira brincar de enxergar o mundo, lilás
através do papel de sonho de valsa.
Não que eu não queira.
É que existe uma estrutura opaca,
a espinha dorsal do existir
esmigalhada por papéis, pausas,
espantos e abstrações.

Não que eu não queira não preparar o jantar
discos de Joni Mitchell, vinhos, aspargos, e braços esbarrando
na cumplicidade latente que não se revela.
Não que eu não queira riscar teu nome à giz em todos os muros
Não que eu não queira ser preso, assaltado.
Não que eu não queira perfurar teus olhos com a lâmina aguda dos meus.
Somos Édipos mundanos, com apartamentos, crediários, olheiras.
Não que eu não queira.
Há apenas a capacidade dos meus ouvidos serem atentos, o suicídio
do dia, indo de encontro ao corredor escuro da noite.

Não que eu não queira fracassar até o final
Não que eu não queira vencer até o final
Não que eu não queira escrever até o final
Não que eu não queira viver até o final.
Mas é que alguma coisa dentro de mim
continua acordada, mesmo enquanto durmo
insone, insana,
peremptória.

Não que eu não queira.
Não que eu não quero.
Apenas presentifiquei subjuntivos,
revesti-os com a massa de cimento
cinza dos dias.

Não que eu não queira.
E, no entanto,
apanhei a maçã verde sobre a mesa e cravei os dentes, subitamente
sentindo a engrenagem do dia soltar-se em alguma parte.
Não que eu não quisesse desobedecer a lei da manhã.
Enfrentei a natureza morta da materialidade,
um espelho, espaços .




Um comentário:

  1. Muito bom Claudimar! Adorei!

    "É que existe uma estrutura opaca,
    a espinha dorsal do existir"
    Que imagem!

    Acho que voce sempre trabalha muito bem os títulos dos poemas. Parabéns!

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